A persistência do “jeitinho” na sociedade brasileira.
Enviada em 29/02/2020
Zé Carioca, papagaio dos estúdios Walt Disney, foi idealizado com base na figura do brasileiro comum, justamente por sua simpatia, malandragem e o jeitinho específico de lidar com as situações. Jeitinho esse, que de maneira análoga, compõe o caráter social do brasileiro, abrangendo seus aspectos mais perversos e levando indubitavelmente ao entendimento das práticas de corrupção presentes em nosso meio. Tal como posto, abordar a prevalência do jeitinho brasileiro é debater a corrupção em sua forma mais pueril e as práticas deletérias que, de maneira geral, impedem o desenvolvimento social, coletivo e trazem prejuízos a toda nação.
Em primeiro lugar, é importante salientar, que a generosidade nata ao brasileiro é um traço definido de seu caráter, mas não necessariamente indica uma postura idônea. Ao estabelecer bons modos, nesse sentido, o brasileiro disfarça ao passo que busca vantagens e interesses individuais em todas as relações, tanto individuais como coletivas, no que Sérgio Buarque de Holanda descreveu com a tese do “homem cordial”. É desse convencionalismo histórico, assim, que a corrupção se origina com consequências políticas e sociais inumeradas. Logo, ao estar mergulhada nesse tipo comportamento, faz-se necessário que a sociedade debata esse fato.
Outrossim, as práticas corruptas levam às relações clientelistas, à troca de favores, ao compadrio, às chicanas, que se arraigam sociedade adentro e sempre determinam perda para os grupos socialmente desfavorecidos. Exemplo desse comportamento, é o fato de que no Brasil, é preferível deixar barragens cederem, viadutos caírem, morros desabarem a ter que cumprir a legislação. É o jeitinho brasileiro, revelado também pelo Índice de Percepção e Cumprimento das Leis, em levantamento de 2019, em que 79% dos brasileiros optam em dar um “jeitinho” diante das leis em vez de cumpri-las. Uma cultura generalizada, injusta e pervas, que só pode ser combatida com educação e prática de igualdade e consciência.
É fundamental, portanto, para resolução desse quadro, que medidas sejam adotadas, tais como um amplo debate social que indague os brasileiros sobre seus respectivos papéis em sociedade, sob uma ótica ilibada, que envolva mídia televisiva, digital, sociedade civil e órgãos como o Ministério Público e o Ministério da Educação, cujo modus operandi se dê entre propaganda midiática, grupos de discussão locais e endurecimento de aplicação de leis por parte do judiciário. E, assim, fomente-se o diálogo, a transformação de realidade e a substituição de um comportamento malandro, como o de Zé Carioca, por um pensamento de igualdade e de desenvolvimento coletivo.