A persistência do “jeitinho” na sociedade brasileira.
Enviada em 01/03/2020
Zé Carioca, personagem dos estúdios Walt Disney, foi idealizada com base na figura do brasileiro comum, justamente por sua simpatia, malandragem e seu jeitinho específico de lidar com as situações. Jeitinho esse que, de maneira análoga, compõe o caráter do brasileiro, abrangendo seus aspectos mais nocivos e levando ao entendimento das práticas de corrupção presentes em nosso meio. Tal como posto, debater o jeitinho brasileiro é abordar a corrupção em sua forma mais banal e as práticas que, de maneira geral, impedem o desenvolvimento coletivo e trazem prejuízos a toda a nação.
Em primeiro lugar, é importante salientar, que a generosidade atribuída ao brasileiro apesar de ser um traço definido em seu caráter, não indica necessariamente uma postura idônea, mas sim um convencionalismo que acarreta nas práticas de corrupção. Logo, a medida em que estabelece bons modos, o brasileiro busca vantagens e interesses individuais em todas as relações, no que Sérgio Buarque de Holanda descreveu como o “Homem Cordial”. Dessa forma, têm-se as pequenas corrupções diárias desde, por exemplo, o suborno ao guarda, as ligações irregulares de luz ou troco errado não relatado, até aquelas de consequências graves. Um comportamento cultural deletério que necessita ser debatido em sociedade.
Consequências graves que, ademais, sempre determinam a perda para os grupos menos favorecidos, pois vale a máxima inexorável que para um ganhar, outro tem de perder. Desse modo, é habitual usufruir das relações clientelistas, da troca de favores e do compadrio em benefício próprio do que seguir as regras, leis e formalismos legais, mesmo que isso determine sérios prejuízos a outrem. Como por exemplo, o rompimento de barragem de rejeitos da Vale em Brumadinho, em 2019, mesmo com vários laudos que atestam o perigo. Assim, a cultura do jeitinho é injusta e alimenta um círculo de impunidade e corrupção, que precisa ser debatido de forma profunda com práticas de educação e igualdade.
É fundamental, portanto, para resolução desse quadro, que medidas sejam adotadas, tais como amplo debate social, que indague os brasileiros sobre os seus respectivos papéis em sociedade, sob uma ótica ilibada e que envolva mídia televisiva, digital, sociedade civil e órgãos como o Ministério Público e o Ministério da Educação, cujo modus operandi se dê entre a propaganda midiática, grupos de discussão locais e endurecimento de leis por parte do judiciário. E assim, fomente-se o diálogo, a transformação de realidade e a substituição do comportamento malandro, como o de Zé Carioca, por um pensamento de igualdade e de desenvolvimento coletivo.