A persistência do “jeitinho” na sociedade brasileira.
Enviada em 28/04/2020
O famoso empresário e cineasta Walt Disney criou, nos anos 1940, o personagem “Zé Carioca”, um papagaio que usava as cores verde e amarelo e representava o caráter “malandro”, esperto, criativo e desenrolando do brasileiro. Esse comportamento tornou-se algo cultural e tem raízes históricas. Contudo, o “jeitinho” pode ser associado a aspectos bons e ruins, e, dependendo do contexto, deve ser combatido. Nesse sentido, faz- se necessário compreender ambos os aspectos.
Em primeiro plano, vale destacar o pensamento do escritor e poeta maranhense Gonçalves Dias, o qual diz que “a vida é combate que os fracos abate, que os fortes, os bravos só pode exaltar” como uma realidade nacional. Nessa ótica, não é difícil perceber a necessidade de lutar para sobreviver, sobretudo, em um país onde negros, índios e mulatos tiveram menos condições e oportunidades desde o Brasil Colônia e precisavam dar “jeitinhos” para obter o alimento, o vestuário e até a liberdade. Hodiernamente, embora os escravos tenham sido libertos pela Lei Áurea, e os índios tenham recebido direitos na Constituição Federal, os brasileiros das classes mais baixas precisam “se virar nos 30”, por meio de “bicos”, privações e economias, para terem acesso ao mínimo daquilo que é essencial para viver, como moradia, alimentação, água e educação. Desse modo, é inquestionável que se faz necessário ser forte para vencer as adversidades, e não ser abatido pelas desigualdades.
Em contrapartida, é inegável que o “jeitinho brasileiro” tem seu aspecto negativo e destruidor, e que traz vergonha à nação. Tal fato pode ser visto desde pequenos comportamentos como colar em uma prova, ou furar a fila em um posto de atendimento de saúde, ou então, no desvio de recursos financeiros, venda de cargos públicos e políticos. Essas ações são motivadas pela vontade de dar-se bem em detrimento do prejuízo de outrem por meio da desonestidade. Ademais, esse cenário corrobora de forma fidedigna o pensamento do filósofo inglês Thomas Hobbes, o qual diz que “o homem é o lobo do homem”, ou seja, possuidor de uma natureza egocêntrica, individualista e perversa que caracteriza o mal “jeitinho”.
Diante do exposto, é plausível afirmar que a persistência do “jeitinho brasileiro” está atrelado às raízes culturais do país de forma positiva e negativa. Portanto, é necessário as instituições de ensino, a família e a igreja construírem uma cultura de ética, respeito e moral nas crianças e jovens com o objetivo de formar cidadão morais e éticos, que não sejam desonestos e trapaceiros, mas que desenvolvam empatia e respeito ao próximo. Isto deverá ser feito desde a educação básica por meio do ensino de ética e cidadania nas escolas. Dessa forma, o personagem “José Carioca”, da Disney, será apenas um desenho fictício e sem paralelo com o brasileiro.