A persistência do “jeitinho” na sociedade brasileira.

Enviada em 21/05/2020

O título da música de Cássia Eller, “Malandragem”, apresenta um termo tão preso ao contexto brasileiro que seria impossível traduzi-lo para outro idioma. Ser “malandro”, isto é, utilizar-se da criatividade para obter vantagens ou fugir de obrigações, já é algo praticamente instaurado em nossa sociedade e em todas as suas camadas. No entanto, eleger o “jeitinho” como uma inércia permite que ele continue. Além disso, faz-se visível que a ineficácia das normas brasileiras, quanto à execução e à fiscalização, contribui para que uma resolução não seja concreta nesse sentido.

À princípio, o discurso de brasileiros reconhecendo-se como corruptos de berço apenas serve para perpetuar esse esterótipo e considerá-lo, erroneamente, como uma condição natural e, portanto como algo imutável. Aqui, faz-se necessário conjurar a famosa frase do filósofo francês Jean-Jacques Rousseau: “O homem nasce bom, a sociedade o corrompe”, isto é, traduzindo para nosso contexto, nenhum brasileiro nasce degenerado, mas sendo criado em uma sociedade que considera essa ideia como verdade e não a enfrenta como problema, é natural que o indivíduo passe esse discurso adiante.

Por seguinte, havemos de pôr em cheque a eficácia das normas no Brasil, pois a aplicação e o controle imperfeitos geram oportunidades para o descumprimento. Assim, é importante ressaltar um índice levantado pela Fundação Getúlio Vargas, em 2014, o qual mostra que, dentre os 7.176 entrevistados, 81% acreditavam ser fácil burlar as leis brasileiras. Esses dados corroboram com a crença de que a aplicabilidade das regras é, além de difusa, lenta e que a fiscalização, essencial para sabermos se a realização está de acordo com a norma escrita, é quase inexistente.

Dessarte, é contundente que a palavra título da canção de Cássia Eller e tão disseminada como âmago brasileiro, torne-se algo que demonstre apenas a engenhosidade que o brasílico tem em lidar com as dificuldades da vida. Por isso, uma rigidez maior das leis deve ser implementada, sendo isso de competência dos três poderes da República, pois eles são responsáveis por criar, aplicar e controlar as regras. Portanto, através de punições mais duras e que sejam aplicáveis igualmente a qualquer cidadão, podemos dificultar os oportunistas em fraudar os regulamentos e, gradativamente, eliminar esse esteriótipo que não pertence a nós.