A persistência do “jeitinho” na sociedade brasileira.
Enviada em 24/05/2020
Stephen King, na obra 1922, sintetiza a relação antagônica existente entre os espíritos que habitam cada indivíduo: o “homem esperançoso” e o “homem conivente”, capaz de se sobressair em relação ao outro. De maneira análoga à realidade, o idealizado “jeitinho” brasileiro materializa o antagonismo defendido pelo autor, sendo um assunto de debate necessário tendo em vista a sua persistência na sociedade, além das mazelas ocasionadas pela atuação do “homem conivente” no meio social.
É preciso pontuar, primeiramente, a problemática da exaltação do “jeitinho” na contemporaneidade. Sérgio Buarque de Holanda, sociólogo brasileiro, constrói em sua obra “Raízes do Brasil” a imagem do “homem cordial”, indivíduo receptivo que age de forma predominantemente afetiva. Nesse sentido, apesar de ressaltar a simpatia do povo, o autor evidencia a ambiguidade existente no brasileiro, inegavelmente propenso a aplicar a facilidade de adaptação e a leveza das relações em situações de corrupção, seja ela em situações banais ou no âmbito político. Assim, ainda que característico da nação, o “jeitinho” acaba protagonizando e banalizando a corrupção, formando uma sociedade desonesta.
Vale ressaltar, também, a hipervalorização do bem individual como fomentador desse comportamento. Immanuel Kant, filósofo prussiano, defende no conceito de “Imperativo Categórico” a importância do agir humano pautado pela razão, externo ao ganho próprio. No entanto, a persistente normalização de maus-hábitos em prol da obtenção de vantagens frente a outros indivíduos invalida o ideal kantiano, considerando que tais atitudes estão enraizadas no dia-a-dia do povo brasileiro. Desse modo, o egoísmo torna-se parte da realidade do país, e contribui para a superficialidade das relações, embasadas no ganho pessoal.
Infere-se, portanto, a necessidade da discussão no que tange à persistência do “jeitinho” no Brasil atual. Nessa perspectiva, cabe ao Ministério da Educação a elaboração de projetos visando ressalvar a importância da Ética em detrimento da corrupção habitual. Isso pode ser feito, por exemplo, por meio da promoção de debates nas escolas, trazendo à tona o lado positivo da cordialidade brasileira e a sua importância no combate a ações desonestas, com a finalidade de extinguir os males do “jeitinho” brasileiro. Dessa maneira, ao contrário da defesa de Stephen King, o “homem esperançoso” terá plena atuação no meio social, contribuindo para um país mais justo.