A persistência do “jeitinho” na sociedade brasileira.

Enviada em 30/05/2020

A obra “Macunaíma - o herói sem nenhum caráter”, do autor Mário de Andrade e publicada em 1928, revela sua personagem principal como um homem preguiçoso, malandro e individualista, características que foram associadas ao brasileiro, concretizadas sob o conceito de “jeitinho”. Nesse contexto, embora prega-se a ideia de que tal processo seja uma forma criativa de lidar com situações adversas, a persistência dessa prática errônea de buscar atalhos para o benefício próprio é fruto de raízes culturais e da impunidade predominante.

Em primeiro plano, nota-se que, no Brasil, a corrupção é um problema histórico: no chamado “voto de cabresto”, coronéis ofereciam proteção especial a indivíduos que os apoiassem politicamente. Hoje, tal prática ainda é notória nas eleições brasileiras, contrariando o conceito do filósofo Aristóteles de fazer uso da política como uma ferramenta para a promoção do bem comum. Assim, as ações da população tupiniquim de levar vantagem sobre diversas situações tornaram-se um traço cultural, conforme aponta Sérgio Buarque de Holanda em seu livro “Raízes do Brasil”, em que mostra a tendência do homem cordial à informalidade.

Ademais, as punições que levariam à amenização de tal quadro apresentam-se frágeis, pois estas raramente ocorrem, contribuindo para a perpetuação das infrações. Isso é fruto da naturalização de tais atitudes, como pirataria e sonegação de impostos, que passaram a ser vistas de forma banalizada, o que traduz o conceito de “banalidade do mal”, da filósofa Hannah Arendt, o qual consiste em naturalizar ações danosas à sociedade. Dessa forma, vê-se a impunidade como fomentadora da desordem social.

Portanto, é mister que o Estado tome providências cabíveis para solucionar esse problema. Destarte, cabe ao Ministério da Educação realizar palestras em escolas e espaços público que abordem sobre a importância de praticar ações coerentes, mediante sociólogos e pedagogos, que busquem orientar os cidadãos sobre o assunto e de modo que os pais, por meio do próprio exemplo, reforcem tais ideais nos filhos, contribuindo para a construção de uma sociedade mais justa. Além disso, o Poder Legislativo, mediante votação na Câmara, deve aprimorar os mecanismos jurídicos já existentes, aplicando punições e fiscalizações mais severas aos infratores. Assim, o caráter macunaíma ficará restrito à personagem de Mário de Andrade.