A persistência do “jeitinho” na sociedade brasileira.
Enviada em 22/06/2020
Em “Raízes do Brasil”, Sérgio Buarque de Holanda ressalta a cordialidade como uma forma de conduta social, que impede a modernização da sociedade e conserva as relações de favorecimento pessoal. De maneira análoga, a persistente cultura do “jeitinho brasileiro” se insere nesse contexto, posto que há a ausência de delimitações entre profissionalismo e privacidade nas relações em sociedade. Desse modo, é evidente como esse etos nacional é constituído por um incentivo cultural, o que culmina na dificuldade do indivíduo em seguir regras formais, gerando problemas como a corrupção.
Nessa conjuntura, o psicólogo Dan Ariely explica sobre como o incentivo cultural é o que molda a desonestidade de um país, tendo em vista que cada individuo possui a mesma propensão de ser desonesto. Dessa maneira, cabe ressaltar o passado brasileiro, que serviu como base para a cultura desse “jeitinho”, uma vez que desde a República Velha, o clientelismo, que era a troca de favores entre o eleitor e o coronel a fim de garantir votos a certos candidatos, foi um dos fatores primordiais para a persistência dessa imprudência na época. Assim, é notório que muitos problemas nesse período histórico perduraram, dado que até hoje há atos corruptos como a compra de votos e descumprimento de outras leis no cotidiano brasileiro.
Ademais, cabe relatar que conforme o Fórum Econômico Mundial, o Brasil é o quarto país mais corrupto do mundo, levando em consideração tanto seu cenário político quanto os hábitos da população. Além disso, o sociólogo Paulo Silva afirma como a educação e a formação cultural dos brasileiros foi baseada em atos de corrupção desde o período colonial, visto que todos os ciclos econômicos coloniais foram marcados pelo suborno, desvio de impostos e outros atos desonestos que configuram até hoje no “jeitinho brasileiro”. Sob esse viés, nota-se como a corrupção é algo integrado na cultura brasileira, o que faz prevalecer esse comportamento por todos os âmbitos sociais.
Diante disso, é evidente como o incentivo cultural promove a persistência do “jeitinho” na sociedade brasileira, corroborando a muitos problemas políticos e sociais como a corrupção. Logo, urge que as mídias sociais, como, as redes de televisão, mudem o jeito em que é propagada a imagem do que é o jeitinho brasileiro, por meio da reformulação de certas propagandas que abordam o tema de forma irresponsável, a fim de mostrar como pode ser maléfica a desonestidade no país. Outrossim, tal preocupação com esses hábitos culturais deve partir do Governo Federal, que, por meio do STF deve investir em maiores fiscalizações quanto a corrupção exercida pela população e os governantes, principalmente nos períodos eleitorais, com a finalidade de reduzir a corrupção presente no Brasil, buscando uma sociabilidade que fuja do universo de favorecimento pessoal, explicitado por Holanda.