A persistência do “jeitinho” na sociedade brasileira.

Enviada em 09/07/2020

Historicamente, o “achamento” do Brasil em 1500 foi fundamental para a manutenção econômica da estrutura monárquica portuguesa. Nesse sentido, a criação do pacto colonial -monocultura, plantation e escravidão- efetivou não apenas a exclusividade comercial colônia-metrópole mas inconscientemente a origem do povo brasileiro. Desse modo, a persistência do “jeitinho” na sociedade, do Brasil, é reflexo do processo histórico da miscigenação e do complexo de inferioridade interiorizada pela própria população.

Nesse ínterim, o fim da escravidão com a Lei Áurea em 1888 foi responsável pela abertura dos portos aos imigrantes para sanar a necessidade de mão de obra, visto que, a inserção dos negros recém libertos na estrutura de trabalho não ocorreu. Logo, o contato entre as diversas etnias promoveu a miscigenação que dificultou, por muitos anos, a definição de quem era o brasileiro. Esse processo, somado às condições de vida insustentáveis da sociedade, que fora marginalizada pelo governo monárquico, originou o “jeitinho” que representa um eufemismo para corrupção ocorrida nos diversos governos. Mas, também refere-se a modificar as estruturas pré estabelecidas para atingir algum propósito desejado, como a própria sobrevivência por exemplo com a realização de tranças no cabelo das escravas, que sempre representou a cultura africana, e tornaram-se esconderijos de grãos de arroz.

Outrossim, a situação de inferioridade que o próprio brasileiro coloca-se é denominado, pelo dramaturgo Nelson Rodrigues, como Complexo de Vira-latas, em que não há o mínimo de orgulho e patriotismo perante a identidade nacional. Isso é reflexo da antiga estrutura governamental -que não foi modificada até hoje- e que nunca realizou ofícios que representaram a vontade geral mas apenas a aspiração dos antigos latifundiários -atual elite.

Finalmente, é imperioso que o Ministério da Educação promova novas aulas, em todas as escolas de ensino público, de ensino profundo perante às diversas etnias existentes no Brasil, além do ensino da história indígena e africana como disciplina obrigatória, desde o ensino médio ao colegial, a fim de tornar explícito que muitos hábitos -alimentícios, religiosos e de vestimenta- realizados hoje, advém dessas populações. Somente assim, ao descobrir a força intelectual e física que promoveu a sobrevivência dessas etnias ao massacre escravista europeu, o povo brasileiro será capaz de acabar com todo complexo de Vira-Latas e usufruir da beleza da miscigenação e do “jeitinho” para realizar o bem e promover afinal a vontade geral.