A persistência do “jeitinho” na sociedade brasileira.
Enviada em 18/07/2020
O “jeitinho brasileiro” por muitas vezes se apresenta como uma marca de identidade nacional, a qual é reconhecida pelos próprios brasileiros. Normalmente, é encarado como um alvo de brincadeiras e diversão, algo peculiar na cultura do Brasil. Todavia, a afirmação constante desse “jeitinho” pela mídia e pela população nacional é capaz de incentivar e justificar a desonestidade em diferentes graus de gravidade, desde uma cola na prova da escola até um complexo esquema de corrupção na política.
A existência dessa característica atribuída ao brasileiro não é novidade. Na obra de Manuel Antônio de Almeida, “Memórias de um Sargento de Milícias” de 1854, é apresentado ao público leitor o personagem Leonardo, o qual é identificado pelo próprio autor como um exemplo típico do “jeitinho brasileiro”, sempre se safando das situações mais complicadas e com um aspecto de vadiagem, que busca somente diversão sem nenhum compromisso com a responsabilidade. A obra em si revela uma certa crítica a esse comportamento e, concomitantemente, o introduz de forma mais profunda na cultura brasileira.
Nesse sentido, é possível observar outras obras contemporâneas que realizam ligação direta com esse comportamento típico brasileiro, como as novelas. Essas buscam sempre trazer no enredo um personagem secundário o qual tem certas atitudes desonestas, não a ponto de ser o vilão da história, mas o suficiente para servir de entretenimento ao público. Entretanto, na mesma história, sempre há o vilão, aquele que realiza todas as farsas possíveis para conquistar determinado objetivo. Contudo, essas novelas separam esses dois esteriótipos de personagens de maneira discrepante. Dessa maneira, é normalizado o fato de que atitudes desonestas podem ser realizadas até determinado limite.
A fim de interromper esse processo de aprofundamento do “jeitinho brasileiro” realizado a todo momento pela mídia nacional, seria necessário a criação de um programa de desconstrução desse ideal, iniciado por incentivos públicos ou privados. O programa deveria ser composto por uma série de documentários curtos e diretos, os quais demonstrariam a influência da normalização do “jeitinho brasileiro” no comportamento social das pessoas, como o experimento do teste de matemática do pesquisador Dan Ariely, que demonstra de maneira explícita a influência de exemplos de desonestidade no comportamento humano. Dessa forma, aos poucos, novelas, séries e filmes serão incitadas a realizar o mesmo e dissolver a imagem desonesta do brasileiro, e as pessoas poderão problematizar a existência desse “jeitinho” na cultura do Brasil e tentarem melhorar seus comportamentos sem se basear na justificativa superficial do “jeitinho brasileiro”.