A persistência do “jeitinho” na sociedade brasileira.
Enviada em 01/08/2020
Sérgio Buarque de Holanda, escritor brasileiro, em sua obra ‘‘Raízes do Brasil’, traça uma análise do perfil do brasileiro e destaca uma característica marcante desse povo: a cordialidade. Porém, quando o autor afirma que o brasileiro é ‘‘cordial’’, ele leva em consideração a definição latina desse termo: ‘‘aquele que age pela emoção’’. Essa ‘‘ação pela emoção’’, que o autor se refere, se aplica a bem á realidade do ‘‘jeitinho brasileiro’’ e á sua persistência, visto que, o brasileiro, como age pela emoção em lugar da razão, muitas vezes não enxerga a distinção entre o público e privado, deixando de lado a ética e a civilidade. Nesse sentido, cabe uma análise dessa prática extremamente enraizada no território nacional, tendo em vista a falha ética por traz desse ato e o cultivo de tal hábito no Brasil.
Primordialmente, destaca-se que a ocorrência do ‘‘jeitinho brasileiro’’ decorre de uma falha ética na sociedade. Conforme Immanuel Kant, filósofo prussiano, o princípio da ética é agir de forma que uma ação possa ser uma prática universalizável. Entretanto, atividade características do ‘‘jeitinho’’, como furar filas e mentir em prol de benefício próprio, contrariam o imperativo categórico de Kant. Isso porque, dificilmente os violadores de tal princípio gostariam que, caso ficassem horas em uma fila, alguém se pusesse em sua frente ou, no caso da mentira, fossem prejudicados de alguma forma por invenções de outrem. Dessa forma, é preciso encaminhar uma solução que restaure a ética do dever e o respeito á velha máxima: “Não faça aos outros o que não gostaria que fizessem com você”.
Outrossim, é fulcral salientar como o cultivo de hábitos perpetua esse problema. De acordo com Émille Durkhein, o processo de socialização é o meio pelo qual os indivíduos interiorizam condutas intrínsecas ao convívio social. Paralelamente ao pensamento do sociólogo, percebe-se que a persistência dessa cultura corrupta se deve ao aprendizado, ainda quando criança, de tal comportamento pelos brasileiros. Isso pode ocorrer, por exemplo, desde o convívio familiar, quando os pais do infante estacionam em vaga de idoso, até à escola, quando jovens buscam uma boa nota em provas pela corrupta atitude da cola. Por conseguinte, tal hábito desonesto é levado adiante e, quando chega na esfera governamental, segundo o site Jusbrasil, chega a custar 69 bilhões de reais por ano.
Portanto, para redução da prática do ‘‘jeitinho’’ no Brasil, cabe ao Poder Público realizar um fortalecimento da educação ética nas escolas por meio de inspiração em modelos educacionais asiáticos, como o Japonês, em que os valores e o agir ético são extremamente valorizados. Isso pode ser feito com uma integração de todas as matérias nesse ensino e na implementação de matérias específicas em favor dos valores normais. Desse modo, o imperativo categórico Kantiano será mais respeitado no Brasil e a cordialidade do povo brasileiro terá somente significado de gentiliza.