A persistência do “jeitinho” na sociedade brasileira.
Enviada em 05/09/2020
No livro “O jeitinho brasileiro: a arte de ser mais igual que os outros”, a antropóloga Lívia Barbosa mostra a ambiguidade do conceito: “[…] o jeitinho é sempre uma forma “especial” de se resolver algum problema ou situação difícil ou proibida; ou uma solução criativa para alguma emergência”. Nesse sentido, cabe falar sobre a persistência do “jeitinho” na sociedade brasileira, que, positivamente, pode ser utilizado como criatividade do brasileiro para conseguir viver a vida, mas, negativamente, tem-se tal como um ato de corrupção que deve ser solucionado.
Convém ressaltar, a princípio, a parte positiva, em que o jeitinho é utilizado como criatividade. Acerca disso, tal pode ser e é uma maneira pela qual muitos brasileiros encontram de se manterem, por exemplo, financeiramente, utilizando da criatividade para fazer arte, vender algum tipo de comida ou artesanato, abrir uma loja etc. A exemplo disso, tem-se o caso de Alexandre “Gaules”, um brasileiro que se encontrava com depressão, sozinho e sem dinheiro para se manter e pagar seus medicamentos, que resolveu inovar e começar a fazer transmissões ao vivo, jogando, e, hoje, se tornou um dos maiores criadores de conteúdo da plataforma “Twitch”, com condições o suficiente para viver a vida.
No entanto, devido jeitinho também pode ser usado por outros meios, como corrupção, trapaça e como forma de se beneficiar em cima dos demais. Nesse sentido, trata-se de algo histórico e cultural brasileiro desde a época colonial, com exemplos como o uso dos santos de pau oco, no período da mineração do ouro no Brasil, que era usado para burlar os impostos sobre tal minério adquirido, escondendo-os dentro das estátuas e, de maneira análoga, hoje pode ser associado às pessoas que usam de brechas para conseguirem abusar de leis e não as cumprir. Além disso, vale citar o casuísmo político, quando alguém altera uma lei para benefício próprio, que foi o caso de Deodoro da Fonseca, que usou de tal artimanha para se eleger o primeiro presidente do país. Nesse viés, percebe-se então que o jeitinho, em tal sentido, encontra-se na base da sociedade desde os trabalhadores (escravos), no período colonial, até políticos, tanto no início da república, quanto atualmente.
Portanto, é notório que a persistência do “jeitinho” na sociedade brasileira também apresenta óbices, que devem ser solucionados. Para tanto, por se tratar de algo cultural, cabe às Escolas, instituição diretamente ligada à construção dos saberes, agir juntamente com a família, que tem um papel social fundamental na formação ética de cada pessoa, e ensinar às crianças e jovens da futura geração sobre tal jeitinho, mas apenas voltado à criatividade, além da importância de se seguir as leis. Isso, então, seria feito por meio de aulas, debates e palestras, a fim de que haja uma reeducação social sobre ética e valores. Assim, será possível sanar a corrupção proveniente desse ato.