A persistência do “jeitinho” na sociedade brasileira.
Enviada em 06/10/2020
Ardiloso, malandro e astucioso. Esses eram alguns dos termos que caracterizavam o personagem “Zé Carioca”, criado em 1942, para representar o povo brasileiro. Lamentavelmente, mais de 70 anos depois, os mesmos adjetivos ainda podem ser utilizados para qualificar a sociedade, marcada pelo famoso “jeitinho brasileiro”. Nesse contexto, convém salientar que esse cenário é perpetuado não só pelo suporte histórico da cultura corruptível, mas também pela tendência natural à imoralidade.
Em primeira análise, é importante citar que a reprodução do jeitinho brasileiro nos comportamentos cotidianos encontra um campo fértil nas experiências históricas. Nesse viés, a estruturação da conduta social, baseada em uma falsa cordialidade opera a favor desse dilema no meio coletivo. Consoante isso, no período da República Velha, pela prática do jeitinho e sua hegemonia regional, os coronéis colaboravam com a manutenção das elites no poder, visto que fraudavam as eleições a partir do voto de cabresto. Tal fato além de frustrante, revela que, historicamente, a atuação corruptível em prol do benefício próprio sistematiza as relações coletivas brasileiras e coopera par que gradativamente os pilares sociais sejam cimentados em políticas corruptas e de cunho egoísta.
Em segundo plano, a propensão ao individualismo também é um dos contraproducentes à superação da problemática. Por essa ótica, de acordo com Pierre de Bourdieau, em sua obra “Teoria do Habitus”, o ser humano naturalmente propende a reproduzir comportamentos que ao longo do tempo são naturalizados e transformam-se em hábitos. Sob essa ótica, é indiscutível que essa tendência, somada à prática paulatina de pequenas transgressões como furar filas e estacionar em vagas restritas, por exemplo, transforma o jeitinho brasileiro em um estilo de vida. Logo, esse exercício permite que as infrações sejam banalizadas e reproduzidas mecanicamente, isentas de culpa e de senso de coletividade o que deploravelmente condescende com a persistência da cultura venal na sociedade.
A partir dos fatos supracitados, faz-se necessário mitigar esse comportamento adverso. Desse modo, o Ministério da Educação, dirigente das instituições de ensino, deve inserir na grade curricular das escolas uma disciplina com aplicabilidade educacional voltada ao combate da estruturação corrompível da sociedade. Essa matéria deve contar com a abordagem das áreas de Ética e Sociologia, fundamentando-se em casos históricos do jeitinho e suas consequências no meio social, como a política na República Velha. Ademais, a escolas como formadora de opinião, devem incentivar o trabalho voluntário a toda comunidade como atividade extracurricular, com o intuito de incitar a empatia e minimizar o individualismo. Assim, com tais medidas, em um futuro próximo, Zé Carioca será apenas um personagem cultural e o imbróglio social, superado.