A persistência do “jeitinho” na sociedade brasileira.

Enviada em 12/10/2020

Ardiloso, malandro e astucioso. Esses eram alguns dos termos que caracterizavam o personagem “Zé Carioca”, criado em 1942, para representar o povo brasileiro. Lamentavelmente, mais de 70 anos depois, os mesmos adjetivos ainda podem ser utilizados para caracterizar a sociedade, marcada pelo famoso “jeitinho brasileiro”, relacionado à maneira peculiar de lidar com as leis. Nesse contexto, convém salientar que esse cenário é perpetuado não só pela negligência estatal à cultura corruptível, mas também pela tendência natural à imoralidade.

Em primeira análise, é importante citar que a reprodução do jeitinho brasileiro nos comportamentos cotidianos encontra um campo fértil no silenciamento estatal. Nesse viés, embora a Constituição Federal de 1988 assegure a construção de uma sociedade justa e solidária, percebe-se que essa garantia não é validada na realidade. Consoante isso, episódios históricos como a constante fraude eleitoral na República Velha para manutenção das elites no poder, por exemplo, demonstram que, há gerações, a cultura corruptível é exercitada no Brasil sob a tutela do Estado devido à sua passividade. Tal fato além de frustrante, revela que, historicamente, as relações coletivas brasileiras baseiam-se no beneficiamento individual, o que assegura a permanência dos direito previsto por lei somente no papel.   Em segundo plano, a propensão ao individualismo também é um contraproducente à mitigação da problemática. Por essa ótica, é indiscutível que a busca por êxito e benefícios particulares nas circunstâncias diárias oportuniza o egocentrismo. Esse, somado à prática paulatina de pequenas infrações, como furar filas e estacionar em vagas restritas para perfazer pequenas urgências, transforma o jeitinho brasileiro em um estilo de vida. Por essa ótica, de acordo com Pierre de Bourdieu, em sua obra “Teoria do Habitus”, o ser humano naturalmente propende a reproduzir comportamentos que ao longo do tempo são naturalizados e transfigurados em hábitos. Logo, esse exercício permite que as transgressões sejam banalizadas e repetidas mecanicamente, isentas de culpa e de senso de coletividade, o que condescende com a persistência da cultura venal na sociedade.

A partir dos fatos supracitados, o Ministério da Educação, deve inserir na grade curricular das escolas uma disciplina educacional voltada ao combate da estruturação corrompível da sociedade. Essa matéria deve contar com a abordagem das áreas de Ética e Sociologia, fundamentando-se em casos históricos do jeitinho e suas consequências coletivizadas, como a política na República Velha. Ademais, a escola como formadora de opinião, deve incentivar o trabalho voluntário à comunidade como atividade extracurricular, com intuito de incitar a empatia e minimizar o individualismo. Assim, em um futuro próximo, o imbróglio social poderá ser atenuado e Zé Carioca ser apenas a um personagem.