A persistência do “jeitinho” na sociedade brasileira.

Enviada em 06/06/2021

Ao longo do processo de formação da população brasileira, o famoso “jeitinho” consolidou-se em várias comunidades. No final do século XX, o “gato de luz”, por exemplo, tornou-se uma forma popular de furto destinada a roubar energia elétrica.Embora tal prática seja atualmente considerada clandestina, nota-se, no comportamento dos cidadãos, o seu impacto, em virtude da alta normalidade que a envolve e das justificativas difundidas por parte do povo para praticá-la, o que ilustra a problemática. Dessarte, é preciso analisar tal conjuntura, a partir da qual o decurso histórico e as simbologias socioculturais corroboram ativamente para persistência do “jeitinho brasileiro” em seus aspectos mais subjetivos.

A princípio, é evidente a dificuldade que há no ser humano em se desprender do passado. Em face disso, Jean de Léry, escritor francês, disserta que um povo é fruto dos contágios sociais e culturais que lhe foram dados. Sob essa ótica, verifica-se que os moldes endêmicos do período colonial  introduzidos, na sociedade brasileira, moldaram o comportamento do povo, uma vez que, desde a chegada dos portugueses, práticas corruptas —como o desrespeito à cultura, à lei e à moral— tornaram-se normativas para a coletividade. Dessa forma, é possível depreender que, ao perpetuar esse panorama, tem-se a materialização da corrupção, a qual contribui com a generalização do “jeitinho” no país.

Ademais, vale ressaltar que a sociedade é pautada em símbolos. Conforme o livro “O poder simbólico”,  do filósofo francês Pierre, a falta de importância concedida a diversos problemas reais, de maneira invisível, é capaz de mover e fundamentar uma escala de poderes e atos. Nessa perspectiva, constata-se que detentores, então, das simbologias com a sordidez, os brasileiros estruturam uma narrativa, na qual a escassez, a desigualdade, a violência e os impostos transformam-se uma espécie de “determinantes motivacionais” para agir fora da lei. Desse modo, milhares de cidadãos, diante de um país hegemonicamente classista, repressor e desigual, deturpam a ordem pública, bem como é também anunciada a estigmatização da cidadania, visto que nascer no Brasil é “sinônimo” de vida escrachada.

Entende-se, portanto, que o “jeitinho” presente na subjetividade do brasileiro constitui desafios a superar. Para tanto, o Estado, por meio da verba pública e dos Três Poderes —para interpretar, legislar e executar—, deve elaborar um sistema de emendas civis, que visem ao desenvolvimento da saúde, da educação, da infraestrutura e do trabalho, com o objetivo de desencorajar as pessoas a cometerem atos ilícitos, além de mostrar compromisso com a formação cidadã. Paralelamente, cabe ao Ministério da Educação inserir, nas escolas, desde a tenra idade, a disciplina de cidadania, de cunho obrigatório em função da sua necessidade, para que, nesse sentido, os alunos se conscientizem e não pratiquem corrupções. Feito isso, será possível transpor esse estigma imoral implementado ao longo do tempo.