A persistência do “jeitinho” na sociedade brasileira.
Enviada em 05/02/2021
Jean-Paul Sartre, filósofo existencialista, expõe em sua obra “Os Caminhos da Liberdade”, o vínculo existente entre a liberdade e a responsabilidade social, na qual as atitudes de indivíduos e instituições refletem em todo corpo social, tendo essas, por fim, a necessidade de se basearem em valores éticos. Considerando a perspectiva sartriana na análise do “jeitinho brasileiro”, nota-se que sua persistência vige em razão de uma sociedade egoísta e moralmente falida. Desse modo, compreender as causas mais profundas desse problemática é fundamental para se apontar o caminho de uma sociedade justa.
Com efeito, consolidou-se no ocidente o preceito liberal de que as pessoas são livres para agirem socialmente buscando seu bem. No entanto, essa ação social deve sempre vir acompanhada de uma ética da responsabilidade que garanta o compromisso com o bem-estar coletivo. Por certo, é o que se percebe no caso do “jeitinho” que, se eticamente conduzido, auxilia o ser humano a contornar várias adversidades presentes no cotidiano. Incongruentemente, valores engendrados por esse mesmo sistema, como o acirramento da competitividade, afloram o caráter nocivo acerca dessas ações.
Outrossim, há a ausência de um amplo projeto educacional capaz de aprimorar a consciência crítica e o exercício de altruísmo, tornando concreto o potencial lesivo desse fenômeno. Certamente, quando há falha na formação educacional de uma pessoa como ser autônomo, esse toma como parâmetro de conduta o senso comum que, à mercê dos ideais liberais, rompem com a integridade ética em diversos âmbitos e níveis, evidenciado desde uma “simples furada de fila” até os altos escândalos de corrupção no Brasil, em que, em ambas as situações, o propósito é o benefício pessoal. Nesse sentido, fazendo com que se torne um persistente aspecto cultural brasileiro que, em vez de funcionar como ferramenta facilitadora do cotidiano, adquire o sentido oposto.
Em síntese, nota-se que a persistência do “jeitinho brasleiro” advém da necessidade constante de superar os entraves do dia-a-dia, contudo, a falha moral que permeia a malha social ressignifica esse propósito. Sendo assim, torna-se necessário uma ampla formação humanística pautada em valores do bem-estar coletivo. Nesse viés, o Ministério da Educação deve incluir à Base Nacional Comum Curricular, do ensino fundamental I e II, atividades de desenvolvimento do altruísmo e da ética, para que se tenha contato com essa sabedoria social logo nos primeiros anos de educação. Complementarmente, é importante estabelecer uma rede consistente de apoio, para isso, a sociedade civil deve realizar ações comunitárias nas associações de bairros com o mesmo fim. Sendo o propósito sempre promover a efetiva responsabilização dos envolvidos e engajá-los em uma cultura de paz e harmonia, aproximando, assim, dos ideais sartrianos.