A persistência do “jeitinho” na sociedade brasileira.
Enviada em 18/02/2021
Existe um termo que é cunhado em vista do suposto caráter corrupto da sociedade brasileira e de seus indivíduos, este é o “jeitinho brasileiro”. Nesse sentido, o senso comum aponta para um certo tipo de “malandragem” patente nos brasileiros que, sempre havendo a possiblidade, buscam a saída mais fácil e, por vezes, corrupta. De fato, o Brasil, último país que aboliu a escravidão, ainda padece das consequências sociais do sistema de produção escravagista que perdurou séculos, a saber, a desigualdade que influencia no aumento do descumprimento da leis. Não obstante, este termo tão popular, antes obscurece do que clarifica o contexto social brasileiro, sendo prejudicial pois naturaliza, na forma de ideologia, o modo de um povo se entender, assim como do cidadão agir, que é influído por seus semelhantes, contribuindo para perenizar a corrupção, os crimes entre outros aspectos.
Primeiramente, o cenário em que escravos recebem a alforria e, porém, sem serem assistidos pelo aparelho estatal, têm de procurar moradias e empregos, engendrou, na formação das classes sociais, uma enorme disparidade de renda e educação entre estas. Assim, pobreza e baixo nível de educação, no processo de adquirir a subsistência, contribuiem para um relativo aumento nos índices de subempregos, nos quais a exploração dos trabalhores é acentuada, sendo os salários baixos, o que consequentemente incita o aumento da criminalidade. Tal problemática supracitada, que corresponde ao “jeitinho” da população, tem fortes causas estruturais e históricas, sendo, hoje, perenizada por meio dos baixos investimentos em programas de auxílio que fornecem itens básicos à vida do cidadão.
De acordo com Jésse Souza, em seu livro Subcidadania brasileira, o termo “jeitinho brasileiro” em si é um termo racista contra o próprio povo brasileiro e, como ideologia, legitima a entrega de riquezas nacionais para países estrangeiros. Nesse raciocínio, entregar para outras nações os atributos do Brasil é mais vantajoso do que deixá-los nas mãos dos políticos nacionais que são, sempre, corruptos. Além disso, a corrupção que é colocada como o cerne dos problemas e, em hipótese, estaria na essência do indivíduo brasileiro, mascara problemas muito maiores, inclusive se tratando de valores, como a sonegação de impostos trilhionária. Tudo isso contribuí para a permanência da disparidade de renda, da corrupção, então, naturalizada em no país e da tergiversação em resolver os reais entraves sociais.
Diante do exposto, depreende-se que os efeitos do “jeitinho brasileiro” são, sobretudo, estruturais e não concernem à suposta especificidade da etnia brasileira. Dito isso, é mister que o poder público sane as necesidades básicas da população, de esclaricimento e referentes a uma vida digna, por meio da criação de programas de auxílio financeiro para as camadas mais pobres, assim como de propagandas que demonstrem a falsidade da visão do povo brasileiro como naturalmente corrupto. Observar-se-á, desta forma, um país menos desigual e corrupto.
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