A persistência do “jeitinho” na sociedade brasileira.

Enviada em 18/08/2021

O seriado “O mecanismo”, disponibilizado pela Netflix, retrata uma situação de corrupção generalizada no governo brasileiro. Baseada em fatos, a obra suscita a discussão sobre favorecimentos ilícitos e atitudes antiéticas para ganho próprio, o que representa o lado negativo do “jeitinho” brasileiro. Este, infelizmente, persiste no país, o que pode ser explicado pela força de costume que detém e, como tal, por estar na base da sociedade.

Nesse sentido, cabe ressaltar, primeiramente, que o enraizado “jeitinho” permanece pois tem a força de uma tradição. Segundo Maquiavel, pensador medieval, mesmo as leis mais bem ordenadas são impotentes diante dos costumes. Sob essa ótica, um hábito coletivo ilegal ou imoral pode perpetuar-se mesmo frente a códigos legais que preconizam ou impõe a ética. Desse modo, pode-se considerar que o indesejável hábito persiste pois possui uma força – estando arraigado como um costume no Brasil – a qual suplanta tentativas formais, por meio de leis e de educação por exemplo, de erradicá-lo.

Outrossim, verifica-se que a presença do costumeiro “jeitinho” no fundamento da sociedade contribui com a sua manutenção. De acordo com Aristóteles, filósofo grego, a base da sociedade é a justiça, virtude que, quando presente, permeia também os cidadãos, os quais, por sua vez, agem eticamente. Sob essa perspectiva, pode-se pensar que uma sociedade cuja base não é plenamente a justiça dá margem para o aparecimento de ações egoístas, que pretendem levar vantagem sobre os outros. Dessa forma, o fato dessa maneira de ser constituir-se, em alguma medida, ao lado da justiça na base da sociedade brasileira favorece a sua perpetuação.

Portanto, diante do exposto, fica evidente a profundidade do problema em questão, o que merece uma estratégica solução. Assim, cabe ao governo federal, a fim de reforçar o costume da ética e da justiça e de enfraquecer o do “jeitinho” na sociedade brasileira, por meio de verbas públicas, criar aulas – no ensino fundamental e médio — que mostrem como pequenas ações antiéticas no dia a dia degradam a sociedade, tornando-a mais corrupta. No ensino, deverá ser usada uma lógica análoga a de como uma simples latinha de alumínio jogada na natureza, através de uma cadeia de causas e efeitos interdependentes, pode causar enchentes, prejudicar animais silvestres e até mesmo o planeta. Feito isso, se terá dado um passo importante para que, no futuro, apenas “o mecanismo” da justiça dos cidadãos brasileiros seja retratado em obras cinematográficas.