A persistência do “jeitinho” na sociedade brasileira.
Enviada em 15/11/2021
A construção de uma identidade coletiva é um processo orgânico e baseado na vivência de um povo. O papagaio Zé Carioca, criação do animador Walt Disney, personifica uma das facetas da cultura brasileira: o malandro. Ele causa confusão, infringe a lei e age de maneira inconsequente, mas, no final, sempre acha um jeito de se safar e acaba tudo bem. Nessa perspectiva, constata-se que o chamado “jeitinho brasileiro”, contornar as regras, é considerado parte da identidade brasileira. Assim, mostra-se relevante pensar nos efeitos da cultura às transgressões às leis na sociedade brasileira, uma vez que a falta de senso de comunidade e a corrupção nos órgãos públicos configuram as maiores problemáticas nesse pernicioso cenário.
De início, é notório destacar a importância do senso de comunidade para a convivência. A partir da Idade Média, o homem deixou de ter uma vida totalmente coletiva e passou a separar o privado, seu, do coletivo, de todos. Viver em sociedade passou a ser o equilíbrio entre ações individuais e o seu impacto no coletivo. Entretanto, quando não há esse equilíbrio, ambos os lados podem ser prejudicados, o que ocorre quando a cultura de quebrar as regras é cultivada ao longo dos anos. Burlar as regras é visto como algo a se orgulhar, uma demonstração de esperteza, ao mesmo tempo em que seguir as regras é visto como um ato de conformismo, ao invés de um compromisso com o coletivo. Assim, ao se colocar em uma posição acima da lei, o indivíduo age em benefício próprio e despreza sua função de cidadão, em um ato de egoísmo social.
Ademais, cabe ressaltar a infiltração da corrupção nos órgãos públicos como uma das ferramentas de manutenção da cultura da transgressão. Esse contexto envolve uso de contatos, ou mesmo propina, para escapar das consequências da infração, o que por si só já constitui outra infração, e envolve todos os níveis do poder, permeando o sistema desde o guarda de trânsito até o juiz. Essa acessibilidade a uma alternativa para escapar das consequências de seus próprios atos revela a proporção do impacto das ações individuais no coletivo. Sendo assim, torna-se urgente reconhecer que esse processo resultou hoje no desdém generalizado do brasileiro às regras.
Com o objetivo de minimizar a cultura da transgressão no Brasil, é dever das instituições públicas, como as polícias e as prefeituras, reestabelecer a integridade de seus serviços, por meio de fiscalização minuciosa e penalização de indivíduos que ferirem a ética do trabalho. Outrossim, cabe ao Ministério da Educação conscientizar a comunidade escolar do ensino básico, a partir de palestras, aulas e atividades lúdicas, para cultivar o respeito à comunidade e às leis nas novas gerações. Assim, a sociedade brasileira será livre dos aspectos negativos do jeitinho brasileiro.