A persistência do “jeitinho” na sociedade brasileira.

Enviada em 18/11/2021

O personagem Zé Carioca foi criado pelo animador Walt Disney em meados do século XX durante uma viagem ao Rio de Janeiro, o qual foi uma personificação da malandragem e do “jeitinho brasileiro” - isto é, a transgressão de normas a fim de obter vantagens ao solucionar um problema. Nesse sentido, percebe-se que há uma normalização e uma persistência dessa conjuntura infratora no imaginário brasileiro. Isso, então, é fruto da cultura desonesta enraizada no país e da impunidade dos violadores dessas regras.

Em primeira análise, cabe ressaltar que a herança histórica contribui para a continuidade do descumprimento das leis dentro da sociedade. No século XVII, durante a exploração aurífera em Minas Gerais, diversos mineiros escondiam ouro dentro de imagens de santos, com a finalidade de sonegar o quinto - imposto que destinava 20% da produção à metrópole. Assim, percebe-se que o descumprimento de regras para benefício próprio é naturalizado em território nacional, colaborando para o esmorecimento da ordem e o aumento da dissimulação na coletividade.

Ademais, tem-se como uma das razões da persistência do “jeitinho” a isenção das punições pela infração das normas. Conforme o eminente filósofo inglês Thomas Hobbes, o homem é mau por natureza, cabendo ao Estado o controle da convivência entre eles. Dessa forma, sendo o brasileiro um indivíduo naturalmente transgressor, a ausência de coerção para essas pequenas corrupções por parte governamental colabora para que a malandragem persista no comportamento brasileiro, além da formação de uma cultura dessa maneira corrupta de lidar com as leis. Logo, são necessárias ações que transformem a relação individual e coletiva com a ética e a moral no Brasil.

É imprescindível, portanto, construir caminhos para mitigar tais atitudes corruptas na sociedade brasileira, sobretudo nos âmbitos educacionais e informacionais. Para isso, escolas e colégios devem desenvolver princípios éticos e morais desde o ensino primário, por meio da inserção desse tópico no plano de ensino - principalmente com debates e diálogos nas aulas de história e sociologia -, com o objetivo de desincentivar a desonestidade historicamente enraizada no imaginário popular e difundir o respeito. Outrossim, a mídia deve produzir ficções engajadas - ou seja, obras artísticas que denunciem problemas sociais - sobre o “jeitinho” brasileiro, a fim de sensibilizar a sociedade sobre essa maneira prejudicial de agir e impedir a naturalização desses comportamentos.