A persistência do racismo na sociedade brasileira

Enviada em 24/01/2020

Na mitologia grega, a fim de punir o povo de Tebas por ter afrontado os deuses, uma esfinge fora instalada às portas da cidade. Ela exigia a todos que ali passavam que decifrassem seu enigma. E aqueles que o erravam perdiam suas vidas. Pioneiro, Édipo decifrou o enigma, provocando o suicídio da fera. Fora do mundo mítico, a persistência do racismo no Brasil também tem representado um desafio à espera de seu Édipo, cuja irresolução perpetua a perseverança de desigualdades históricas. Nesse sentido, medidas devem ser adotadas para solucionar essa problemática, a qual perdura devido à negligência governamental e à conformidade da sociedade.                                                              A princípio, a negligência do Estado em combater a permanência do racismo contribui para sua conservação. Tal fato ocorre porque o governo - majoritariamente branco - pretere essa situação. Segundo o historiador Raymundo Faoro - em sua obra ‘‘Os Donos do Poder’’- a corrupção herdada da Colonização portuguesa construiu uma burocracia estatal estruturada no patrimonialismo, marcada por interesses particulares em detrimento dos interesses públicos. À vista disso, é inegável que tal análise se reflita no racismo estrutural vigente - como na desigualdade salarial por raça apontado pelo IBGE - cuja displicência política esquiva o Estado do dever de garantir a igualdade de direitos entre os cidadãos ao passo que os interesses privados são postos, historicamente, acima dos interesses sociais.

Outrossim, a conformidade social diante desse contexto coopera com sua persistência. Lamentavelmente, isso é reflexo de uma nação anestesiada perante mazelas sociais cotidianas por não atingir todas as camadas da sociedade de classes brasileira. Consoante a filosofia de John Locke, que afirma que, enquanto a opressão não for geral, o povo não irá se revoltar. A partir dessa perspectiva, o fato de o racismo não atingir a todos - principalmente os ‘‘donos do poder’’- garante que a vitimização de brasileiros pelo racismo não cause ‘‘revolta social’’, a qual se omitem em cobrar medidas aos entes da federação que quitem suas dívidas sociais históricas  mediante políticas públicas eficientes.

Portanto, é indispensável a superação do racismo. Dessa maneira, o Ministério da Educação  deve investir na conscientização dos alunos por meio da abordagem das leis de combate ao racismo e a importância de denunciar. Além disso, garantir bolsas de estudo para alunos negros sob risco de evasão escolar, objetivando garantir a escolarização e ascensão social pelo mercado de trabalho no futuro. Ademais, a sociedade deve realizar o exercício da cidadania mediante a denúncia ao Ministério Público ao presenciar casos de racismo - como desigualdade salarial - a fim de superá-lo. Com efeito, o enigma da persistência do racismo no Brasil vislumbrará a chegada de ‘‘seu Édipo’’: Estado e sociedade compromissados em garantir as suas vítimas o acesso ‘‘às portas’’ que as separam da igualdade social.