A persistência do racismo na sociedade brasileira
Enviada em 07/03/2020
O profeta Natã perguntou a Davi o que ele pensava sobre um rico que usurpou o único bem de um pobre. Tal atrocidade merece a morte, respondeu, mas não contou com a repreensão de que ele era culpado do mesmo crime. De modo análogo, brasileiros hoje facilmente reconhecem como terrível o preconceito racial. Ainda assim, dado que o problema persiste, poucos são conscientes de que essa nefasta atitude atrapalha tanto o progresso individual quanto coletivo.
O filósofo Kierkegaard recorda essa passagem bíblica não sem motivo. Para ele, a existência humana é paradoxal: a bondade é proferida mas as atitudes comumente comprovam o oposto. Por isso, muitos são rápidos na defesa da igualdade das raças e lentos a conciliar o discurso à prática. Além dessa hipocrisia, ser racista significa desprezar a possibilidade de refletir e aprender com a bagagem sociocultural diferente do outro. Por isso, o racismo é pernicioso não somente para as vítimas mas também para aqueles que o praticam.
Ademais, John Stuart Mill, em seu célebre texto “A Sujeição das Mulheres”, defendeu que a ausência de igualdade de estudo e oportunidades para os gêneros significa, tão somente, negar a contribuição de metade da população para o progresso humano. É evidente, pelo mesmo raciocínio, que conservar a discriminação de raças significa, tão somente, segregar grupos sociais e penalizar a todos. Finalmente, o preconceito racial que produz mazelas, tão presente em toda a nossa história, deve ser enfrentado a fim de que todos os brasileiros se beneficiem.
Para tanto, cumpre ao Ministério da Educação incentivar um currículo nacional que valorize nossas raízes: com a inclusão cultural não só de colonizadores e imigrantes, mas de escravizados e indígenas que muito têm a contribuir. Como Davi, os mais vulneráveis foram e ainda são sacrificados. Logo, para reverter esse quadro, não há solução que não seja reconhecer esse erro e reparar com a educação.