A persistência do racismo na sociedade brasileira

Enviada em 06/07/2020

Ao cantar que “a carne mais barata do mercado é a carne negra”, Elza Soares expõe a semelhança entre o prelúdio da sociedade tupiniquim, em que o povo afrodescendente era tratado como mercadoria, e a estrutura da sociedade hodierna. Assim, tal qual as correntes prendiam os escravos, a estrutura racista da sociedade impede o desenvolvimento do povo negro, por meio de um processo cultural excludente que deve ser combatido.

Sabe-se que, de acordo com Hegel, a mentalidade do homem é consoante ao tempo e à sociedade a qual está inserido. Nesse sentido, o preconceito racial se estrutura por meio de práticas históricas, culturais e interpessoais. Dessa forma, comportamentos racistas são naturalizados, o que contribui para a permanência do modus operandi que privilegia brancos. Logo, a forma velada do racismo faz-se mais prejudicial que a ostensiva, pois enraíza na população vieses inconscientes e segregatícios mais difíceis de serem combatidos, visto que são parcamente identificados por quem não sofre a discriminação. Outrossim, de acordo o IBGE, jovens negros têm o maior índice de evasão escolar; infere-se, então, que não há políticas públicas de incentivo proporcionais aos empecilhos que a desigualdade acarreta. Ainda, tal estrutura segrega no mercado de trabalho, pois, de acordo com dados do IPEA, mesmo que conquistem uma graduação negros são preteridos para as vagas pela cor da pele.

Constata-se, ainda, que a cultura é um fator necessário para a construção de uma democracia racial. Todavia, esse espaço é restringido, de modo a não proporcionar igualdade de expressão entre raças. Em adição, embora fundamentais na formação cultural brasileira, expressões culturais afrodescendentes são censuradas, como o samba, que desde sua gênese nas senzalas foi perseguido e marginalizado. Além disso, a Indústria Cultural, descrita pela Escola de Frankfurt, reforça um ideário racista, porque as mídias de massa não só representam os negros sobretudo ocupando posições inferiores, como também não apresentam protagonistas ou figuras públicas afrodescendentes. Não obstante, Tauá Pires, que integra a Oxfam Brasil, afirma que “representar é inspirar e consolidar identidades”. Ademais, conforme Chimamanda Ngozi, uma história única, sob viés europeu, exclui os negros da posição de agentes de sua narrativa e reforça um ideário de disparidade que os inferioriza.

Dado o exposto, portanto, cabe ao MEC, por meio da BNCC, incentivar maior representação da história negra e promover espaços de debates no ambiente escolar, para que o racismo seja identificado e combatido pela comunidade. Enfim, a sociedade civil se mobilizará para pressionar empresas e mídias em prol de medidas afirmativas para maior inclusão no mercado trabalhista e representatividade do povo negro, a fim de que esse seja liberto dos grilhões racistas.