A persistência do racismo na sociedade brasileira
Enviada em 06/07/2020
No romance Úrsula de Maria Firmina dos Reis a personagem preta Susana, escrava de Luiza B, relata como foi tirada de sua terra e das condições desumanas a que foi condicionada. Seguindo esse parâmetro, embora a Lei Áurea tenha sido assinada a 132 anos atrás, pensamentos escravistas persistem na sociedade hodierna. Esses possuem relação direta com a maneira como escravidão foi abolida, assim como com a deficitária representação midiática da população negra.
É sabido que a mão de obra escrava foi amplamente utilizada durante o Brasil Colônia, alicerçada no princípio de que os brancos eram superiores, o que lhes concedia o direito de dominação sobre os demais. Ainda que ela tenha sido findada, nenhum processo de integração dos ex escravos a sociedade ou conscientização da população sobre equidade de etnias ocorreu, desse modo muitos continuaram a viver nas mesmas condições precárias e insalubres. Consequentemente isso repercutiu ao longo dos anos contribuindo para inferiorizar a cultura, a capacidade mental, as características físicas e a religião dos afrodescendentes, personificada na exclusão social, na violência física e nos xingamentos de cunho racista. Assim sendo a concretização do sonho de Martin Luther King de que vivamos em uma sociedade na qual as pessoas não sejam julgadas pela cor da pele, mas pela personalidade permanece distante. Paralelamente além de serem minoria nas produções nacionais cinematográficas, a forma pela qual os negros são retratados na mídia é no mínimo precária e incompleta, considerando o enfoque dado e os papéis que interpretam. Essa situação de baixa representatividade é acordante a dados da Agência Nacional do Cinema (Ancine), consoante os quais os negros representaram apenas 13,3% do elenco de filmes brasileiros do ano de 2016. Bem como a perspectiva de miséria, criminalidade, fome e subalternidade sob qual as lentes os expõem em detrimento de apresentar as qualidades de um povo conquistador apesar das dificuldades, corrobora com a difusão da história única, que conforme Chimamanda Ngozi Adichie intensifica as disparidades. Além disso os afrodescendentes raramente são protagonistas, mas interpretam bandidos, domésticas ou servem de alívio cômico, o que fortalece a visão determinista de que não importa o que façam serão sempre inábeis e subordinados.
Desse modo, é imprescindível buscar promover a igualdade racial no Brasil. Nessa lógica, é imperativo a parceria entre o Ministério da Educação e o Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, para o desenvolvimento de projetos nas escolas, que visem a promoção, valorização e estudo da riqueza e importância da cultura afrodescendente, por meio de materiais lúdicos, dinâmicas pedagógicas, palestras e debates. Para que tenhamos cidadãos mais tolerantes e uma maior e melhor representação da comunidade negra, a fim de que as pretas Susanas contemporâneas sejam alforriadas do racismo.