A persistência do racismo na sociedade brasileira
Enviada em 06/07/2020
Em uma palestra TED Talk intitulada “o perigo de uma história única”, a escritora e ativista Chimamanda Ngozi Adichie fala sobre a falta de representatividade e outras questões decorrentes de histórias que têm apenas uma versão esterioripada da realidade dos fatos. Nigeriana, ela comenta sobre a conformidade em se imaginar a África apenas como um lugar quente e repleto de sofrimento. Desta forma também funciona o racismo na sociedade brasileira: a história única provoca um distanciamento da cultura de grupos marginalizados e justifica a manutenção do preconceito racial, mesmo que velado.
Não é incomum ouvir-se comentários depreciativos acerca de questões como as cotas raciais, os quais certas vezes vêm acompanhados inclusive de contestações do direito de lazer das minorias, por exemplo: “tem preguiça de estudar e quer cota, mas não tem preguiça de sair para passear à noite”. Episódios do tipo estabelecem uma desumanização do indivíduo, um afastamento sistemático da sua cultura e dos seus direitos. Porém, pessoas racializadas raramente são vistas como seres únicos, são normalmente representantes do todo, de todas as pessoas com quem dividem a cor ou etnia. Ou seja, o teórico erro de um, reflete em todos. Assim, o preconceito passa a ser “menos pior”, até justificável, enquanto as lutas sociais contra esse mal, passam a ser enxergadas como “vitimismo e mimimi”.
Infelizmente, o racismo está em todas as esferas sociais e se manifesta de diferentes formas. Contudo, uma das mais silenciosas e cruéis é o racismo estrutural, ligado a privação de direitos e assistência do Estado, em determinados casos. Isso pode ser exemplificado pelas pesquisas que mostram que, na pandemia de Covid-19, crianças e adolescentes indígenas brasileiras têm uma taxa de mortalidade muito maior que as outras (7,5 e 0,73 por 100 mil habitantes, respectivamente, de acordo com dados do governo Federal e da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil). Ainda que parciais, tais dados refletem, dentre outros fatores, o descaso dos governos que não propiciam o atendimento correto a esta parte da população. Como já apontado por muitos pesquisadores do assunto, o racismo só deixará de ser algo que fundamenta a sociedade, a partir do momento que aqueles que detêm o poder passem a questionar, discutir e buscar soluções em seus espaços diários.
Logo, para que o racismo possa ser superado e a equidade racial se torne uma realidade, é fundamental que as pessoas em espaços de poder dêem visibilidade e alcance a estas discussões para que cada vez mais enxergue-se esse problema que aflige a todos. Também, é urgente que os veículos midiáticos invistam em campanhas de diversidade e voz para grupos marginalizados, como uma ferramenta contra “a história única” de Chimamanda. Afinal, informação aproxima as pessoas das realidades que desconhecem e propicia uma visão mais ampla e correta das lutas alheias.