A persistência do racismo na sociedade brasileira

Enviada em 20/08/2020

Na obra “Ensaio sobre a cegueira”, o escritor José Saramago sinaliza, metaforicamente, uma crítica ao individualismo através de um processo epidemiológico de cegueira que atinge toda uma comunidade. No Brasil, por exemplo, essa incapacidade coletiva de enxergar é vista na indiferença do Estado e de parte da população frente ao racismo estrutural. Diante do exposto, cabe analisar as causas e consequências que circundam essa questão no país.

Antes de tudo, pontua-se que o Poder Público tem se mostrado negligente ao permitir esse racismo. Como prova disso, vê-se a omissão das instituições governamentais ao não promoverem o maior investimento financeiro para políticas afirmativas, como, por exemplo, a ampliação do sistema de cotas raciais nas universidades públicas, o que pode prejudicar a profissionalização dos afrodescendentes e contribuir para a marginalização social desses, além de comprometer a consolidação do direito à igualdade. Desse modo, certifica-se que o bem-estar de toda a coletividade não tem sido assegurado, demonstrando a ruptura dos princípios presentes na Constituição Federal de 1988.

Ademais, observa-se que uma parcela da sociedade tem aceitado o racismo estrutural, o que denota uma banalização do mal. Confirma-se isso pela apatia de alguns indivíduos perante a ausência de fiscalização estatal, visto que falta inspecionar, com mais rigor, o ordenamento jurídico que proíbe a injúria racial contra negros, o que tem permitido a impunidade das pessoas que violam a integridade moral daqueles. A naturalização desse fato corrobora os estudos de Hannah Arendt, pois, segundo a filósofa, o enfraquecimento da capacidade humana de discernir o certo do errado é resultado de um processo de massificação social.

Evidencia-se, portanto, que o racismo estrutural deve ser combatido. Para isso, é necessário que o Ministério Público solicite ao Poder Executivo um maior direcionamento de verbas para o Ministério da Educação, de modo a expandir a quantidade de vagas nas instituições públicas de ensino superior destinadas aos cotistas negros, o que asseguraria a inserção desses no mercado de trabalho e sua ascensão social. Ainda, é fundamental que Organizações Não Governamentais, através de veículos midiáticos, promovam campanhas que visem estimular a mobilização coletiva para que se exija do Estado a segura implementação das leis antirracistas, a fim de garantir que não haja impunidade para indivíduos que praticam esse crime. Sendo assim, seria possível restringir a negligência social à obra de José Saramago.