A persistência do racismo na sociedade brasileira

Enviada em 28/09/2020

É marcada por certa inocência, e ignorância, a visão que o brasileiro possui em relação às práticas racistas presentes em seu cotidiano. Essa ingenuidade é correlata ao velho mito da democracia racial, uma ideologia que postula a existência de uma harmonia étnica social, oriunda de uma suposta cordialidade inerente ao comportamento brasileiro. Tal ideia, apesar de ter sido defendida por sociólogos renomados como Gilberto Freyre, quando vista de forma analítica revela-se um eficiente mecanismo ideológico, responsável por encobrir e sustentar a atual assimetria racial, herdada de uma importante instituição do passado colonial do Brasil, a escravidão.

Dentro dessa conjuntura, o preconceito racial se consolida de forma sutil, e perversa, via cultura imaterial, por meio de mitos, estereótipos, piadas, objetificações e caricaturas envolvendo o oprimido. Este comportamento, ao ser institucionalizado, acaba incentivando cidadão a aderir uma postura irreflexiva sobre os próprios atos, situando-se em uma ‘ilha de democracia racial’, como mencionado pela antropóloga Lilia Schawrcz. Com isso, por se considerarem livres de práticas racistas, grande parte da população da população acaba ignorando os pequenos detalhes que contribuem para essa anomia social vigente, marcada por uma explícita segregação racial.

Dessa maneira, as minorias atingidas, em especial as populações negra e indígena, acabam excluídas do exercício democrático devido à escassez de oportunidades para a sua ascensão social, como o acesso à educação, moradia e segurança. Essa desigualdade costuma ser vista de forma redutiva pela classe opressora, que categoriza o marginalizado como único responsável por sua condição. Baseada em diversos clichês relacionados à ideologia meritocrática, que desconsidera o processo histórico do Brasil, essa postura costuma ser difundida entre pessoas de perfil similar, que é branco, de classe média ou alta, e sem nenhum local de fala sobre essa forma de opressão.

Logo, é evidente a necessidade de uma revisão histórica que objetive identificar e desconstruir os inúmeros comportamentos racistas enraizados na cultura brasileira. Sendo assim, o foco deve ser pedagógico, com parcerias entre o Ministério de Educação e os principais núcleos de cultura étnica existentes, elaborando eventos e materiais didáticos que dissertem sobre a riqueza da diversidade etnocultural do país. Como amparo legislativo, o Estatuto da Igualdade Racial deve garantir equidade e justiça, ampliando as costas para o acesso desses cidadãos à universidade e o endurecendo as penas aplicadas aos crimes de racismo e injúria racial. A luta contra essa forma de preconceito é o único caminho para a materialização de uma democracia plena, que só existirá quando o fator racial não precisar mais ser considerado, ao contrário do que acreditava Freyre.