A persistência do racismo na sociedade brasileira

Enviada em 05/12/2020

O profeta Natã perguntou a Davi o que ele pensava sobre um rico que usurpou o único bem de um pobre. Tal atrocidade merece a morte, respondeu o rei, que não contava com a dura repreensão de que ele era culpado do mesmo crime. Tão revoltante quanto, o crime de racismo na sociedade brasileira, desde os tempos da colonização, ainda não foi superado. Isso se explica porque, como Davi, muitos brasileiros hoje são hipócritas pois não se reconhecem racistas embora suas ações comprovem o contrário. Essa nefasta e incongruente atitude acontece em virtude do desconhecimento de si mesmo e, como consequência, atrapalha tanto o progresso individual quanto coletivo.

Em primeiro plano, infelizmente, o desconhecimento de si mesmo gera atitudes incongruentes com o discurso antirracista de muitos. É por esse motivo que o filósofo Kierkegaard recorda a passagem bíblica citada. Para ele, a existência humana é paradoxal, ou seja: a virtude, tal como a alegação da ausência de preconceitos, é proferida, mas as ações comumente comprovam o oposto. Por isso, muitos são rápidos na defesa da igualdade das raças e lentos em conciliar o discurso à prática. Entretanto, a solução para esse problema já foi ensinada pelo Oráculo de Delfos: “conhece-te a ti mesmo”. Por desprezar isso, muitas desgraças acontecem, como ensina a clássica tragédia de Ésquilo sobre Édipo, que por ignorância matou seu próprio pai e casou com sua mãe.

Ademais, o racismo é pernicioso não somente para as vítimas mas também para o indivíduo que o pratica. Essa consequência se deve porque ser racista significa desprezar a possibilidade de refletir e aprender com a bagagem sociocultural diferente do outro. Isso fica claro ao recordar que John Stuart Mill, em seu célebre texto “A Sujeição das Mulheres”, defendeu que a ausência de igualdade de estudo, e oportunidade, para os gêneros significa, tão somente, negar a contribuição de metade da população para o progresso humano. É evidente, pelo mesmo raciocínio, que conservar a discriminação de raças significa segregar grupos sociais e, como resultado, penalizar a todos.

Finalmente, a hipocrisia do discurso que destoa da prática deve ser enfrentada a fim de que todos os brasileiros se beneficiem. Isso só é possível com o combate ao preconceito racial que ainda produz mazelas tão presentes em toda a nossa história. Para tanto, cabe ao Governo Federal, por meio de um Decreto Federativo, criar um Programa Nacional de Combate ao Racismo, com a finalidade de valorizar nossas raízes – com a inclusão histórica e cultural não só de colonizadores e imigrantes, mas de todos os povos que nos constituem. De fato, como Davi, os mais vulneráveis foram e ainda são sacrificados. Logo, para reverter esse quadro e progresso de todos, não há solução que não seja olhar para si, reconhecer os erros, e reparar com educação.