A pobreza menstrual como reflexo da desigualdade social no Brasil
Enviada em 17/10/2023
A obra audiovisual “Big mouth”, produzida nos EUA, acompanha as transformações púberes de Jessy, que começa o seu ciclo menstrual, passa pela adaptação e acessa produtos de higiene próprios para esse momento. Todavia, tratando-se de mulheres e meninas em situação de pobreza menstrual, vulnerabilidade socioeconômica que atinge até mesmo o acesso aos produtos higiênicos necessários para conter o sangramento, esse ciclo biológico torna-se problemático. Esse cenário se dá devido à negligência estatal - pautada na centralização do sujeito homem - e implica em violências simbólicas contra essa parcela demográfica.
Diante desse cenário de precariedade, infere-se que o Estado, ao definir as diretrizes e serviços do SUS, desconsidera as necessidades específicas da população que menstrua. Essa falha acontece porque, frequentemente, coloca-se o “sujeito mulher” em segundo plano, admitindo-se o “sujeito homem” como padrão humano, segundo a filósofa Simone de Beauvoir. Dessa maneira, centraliza-se a vivência da pessoa que não menstrua, colocando suas necessidades como pautas principais, em detrimento das pessoas portadoras de útero.
Assim, tendo em vista a realidade desigual supracitada, é justo afirmar que a pobreza menstrual configura um ato de violência invisível, visto que causa danos morais e psicológicos aos violentados, como quando a menina não consegue ir à escola em virtude da falta de acesso à absorventes. Nesse viés, pode-se afirmar que a miséria menstrual corresponde ao conceito de “violência simbólica”, definida pelo filósofo Pierre Bordieu.
Infere-se, portanto, a urgência de mudança nesse panorama. Logo, é tarefa do Estado - materializado pela união entre o Ministério da Saúde e o Ministério do Desenvolvimento Social - viabilizar a distribuição de produtos menstruais para as cidadãs mais vulneráveis. Essa ação cidadã deve ter o objetivo de mitigar a situação de indignidade a qual inúmeras brasileiras estão sujeitas, e ser implementada principalmente nas UBSs e nas escolas públicas, pois nesses locais está a população-alvo de tal assistência. Assim, mais meninas poderão acessar produtos menstruais facilmente, como a personagem Jessy.