A pobreza menstrual como reflexo da desigualdade social no Brasil

Enviada em 14/10/2023

O documentário ‘‘Absorvendo o Tabu" da Netflix, acompanha o cotidiano de uma comunidade rural na Índia onde as mulheres precisam reter o fluxo menstrual com cinzas e tecidos. Nesse cenário, a realidade do Brasil também é semelhante, uma vez que, pela desigualdade social, algumas pessoas não possuem acesso a absorventes e utensílios de higiene no período menstrual, o que acarreta em um maior nível de evasão escolar para adolescentes femininas.

Em primeiro plano, de acordo com o sociólogo Darcy Ribeiro, o fato da nação ter acabado tardiamente com a escravidão, desencadeou em uma enferma desigualdade social. Nessa conjuntura, os ex-escravos não foram devidamente assistidos pelo Estado após a assinatura da Lei Áurea pela princesa Isabel, lei esta que os libertou, o que gerou, até os dias atuais, um enorme contingente de brasileiros em vulnerabilidade econômica. Desse modo, como vivem com pouco, há a necessidade de priorizarem itens mais urgentes, como alimentos, acarretando na ausência de dignidade e cidadania para as mulheres, que precisam utilizar miolo de pão e tecidos, muitas vezes mal higienizados, no lugar de absorventes. Logo, há o desencadeamento de infecções vaginais, prejudicando a saúde feminina.

Ademais, em consonância ao que foi exposto, é importante ressaltar que a Constituição Federal de 1988, coloca com primazia o direito de todo cidadão ter acesso a educação. No entanto, sem os mecanismos eficientes para retenção do sangue menstrual, inúmeras mulheres se ausentam das atividades educacionais, o que a longo prazo, transforma-se em uma evasão escolar. Assim, ocorre uma perpetuação de desigualdade social, pois a educação é a principal ferramenta dos indivíduos em vulnerabilidade social, capaz de modificar os quadros de pobreza.

Portanto, para que o Brasil não se assemelhe ao documentário da Netflix, é necessário ação. ONGs em parceria com empresas do âmbito de higiene feminina, devem distribuir mensalmente e gratuitamente, nas escolas e nas comunidades, coletores e absorventes, para que haja ampliação da dignidade menstrual e preservação da saúde íntima dessas garotas, diminuindo os riscos de infecções. Além disso, haverá também uma maior assiduidade dessas mulheres nas escolas, atenuando assim, a evasão escolar.