A pobreza menstrual como reflexo da desigualdade social no Brasil
Enviada em 03/11/2023
O conceito “Cidadanias Mutiladas”, do géografo brasileiro Milton Santos, explicita que a democracia só é efetiva no que tange à totalidade do corpo social. A partir dessa perspectiva, a realidade atual se distancia desse ideal democrático, haja vista que a pobreza menstrual sofrida por muitas mulheres reflete a crescente desigualdade do país. Desse modo, é essencial analisar os principais propulsores desse contexto hostil: a negligência governamental e o preconceito enraizado.
Sob esse viés analítico, é importante destacar que o descaso governamental é um fator preponderante para o lamentável desrespeito com a saúde da mulher. Isso se deve, principalmente, à péssima gestão do dinheiro público, que priva as camadas mais pobres de terem acesso à itens básicos como, por exemplo, ao absorvente íntimo. De tal modo, o livro “Quarto de Despejo”, de Carolina de Jesus, ilustra o triste cotidiano de uma família em situação de miséria, que cerece de princípios fundamentais para a sobrevivência, como à higiene. Logo, a mercantilização dos direitos básicos, tal qual a omissão do Estado, perpetua a crescente pobreza menstrual e a débil dicotomia social.
Além disso, é válido salientar que o preconceito enraizado na sociedade potencializa essa conjuntura. Nessa lógica, na pólis Grega -considerada o berço da democracia- as mulheres não eram vistas como cidadãs e, devido a isso, tinham seus direitos invalidados, sendo consideradas impuras. Diante disso, a posterior inserção do público feminino no corpo social trouxe consigo diversos estigmas, entre eles, o tabu e a ignorância, com a crença de que o assunto da saúde ginecológica deve ser segregado e silenciado. Dessa forma, é imprescindível combater a falha da pobreza menstrual, visto que prejudica uma classe da sociedade.
Fica evidente, portanto, que mudanças são importantes para a atenuação da conjuntura brasileira. A princípio, cabe ao Governo Federal -em sua função de promotor do bem-estar social- em conjunto com as mídias digitais, democratizar a saúde ginecológica, por meio de campanhas para a distribuição de absorventes gratuitos nas cidades, com esse fim, a pobreza menstrual não refletirá mais uma sociedade desigual, e o ideal de Milton Santos será, de fato, uma realidade no país.