A pobreza menstrual como reflexo da desigualdade social no Brasil
Enviada em 21/10/2024
Na produção musical brasileira “Mulheres de Atenas”, interpretada pelo cantor Chico Buarque, o eu-lírico narra a passividade feminina perante as estruturas sociais que perpetuam a desigualdade de gênero. Concomitantemente, é nítida a assimetria da sociedade brasileira quanto a pobreza menstrual. Logo, é uma realidade o silenciamento social ao acesso igualitário à saúde e a inércia estatal.
Diante desse cenário, é evidente a indiferença da conjuntura brasileira quanto à saúde pública feminina. Nessa perspectiva, Simone de Beauvoir -expoente filósofa- definiu o conceito de invisibilidade como indiferença crônica sofrida pelas minorias em razão de seu gênero, classe e função social. De maneira análoga ao pensamento de Beauvoir, a discussão acerca do acesso social à saúde da mulher, embora seja relevante para o desenvolvimento de uma sociedade brasileira democrática na contemporaneidade, não recebe a devida importância, haja vista a falta de conhecimento sobre os cuidados com pessoas que menstruam, bem como a capitalização exacerbada de produtos de higiene feminina. Dessa forma, enquanto a omissão for a regra, a pobreza menstrual permanecerá no Brasil.
Ademais, é válido ressalta a insuficiência estatal quanto à dignidade menstrual. Nesse viés, o filósofo Norberto Bobbio, na obra “Dicionário de Política”, afirma que o Estado deve -ou deveria- não apenas garantir os direitos, mas também assegurar que a população usufrua deles. Sob essa lógica, a partir do raciocínio de Bobbio, o Estado precisa não apenas criar políticas públicas que assegurem o acesso gratuito à higiene feminina, mas também garantir como direito social a indivíduos de baixa renda. Tal carência é evidenciada pela ausência de projetos sociais na área da saúde. Desse modo, nota-se uma grave ruptura no cenário popular brasileiro.
Assim sendo, é mister que o Estado tome providências para melhorar o impasse do quadro atual, visto que a pobreza menstrual ainda é um óbice no Brasil. Urge, portanto, que o Ministério da Saúde -órgão responsável pelo bem-estar brasileiro- faça campanhas e palestras sobre a saúde da mulher e projetos de distribuição gratuita de produtos menstruais, por meio de aprovações constitucionais, para que a pobreza menstrual seja subtraída no Brasil hodierno. Pois, somente assim, o contexto da mulher brasileira diferirá da canção “Mulheres de Atenas”.