A população em situação de rua no Brasil

Enviada em 25/09/2019

Na obra A Metamorfose de Franz Kafka, Gregório Samsa se transforma em um gigantesco inseto, que por onde passa deixa repulsa e medo, por vezes até o ódio de quem o vê. Analogamente ao cotidiano da população de rua no Brasil, o descaso da sociedade e a inobservância estatal frente à essa problemática, contribuem para que os transeuntes sofram com a mesma exclusão de Gregório e passem a viver às margens do corpo social. Nesse sentido, esse entrave deve ser resolvido não apenas pelo poder público, mas por toda a sociedade.

A priori, deve-se analisar a alienação da sociedade com tal cenário. De maneira análoga a obra Ensaio sobre a cegueira, do romancista José Saramago, o corpo social passa por uma cegueira moral, onde não tenta enxergar o martírio da população de rua. Pois, conforme explica a filósofa Hannah Arendt em sua obra Banalidade do mal, uma situação recorrente, mesmo que desumana, passa a ser vista como cotidiana pela banalização dos fatos. Visto isso, essa banalidade pode ser exemplificada pela música traduzida  ‘‘Outro dia no Paraíso’’ do artista britânico Phil Collins, que conta a história de uma moradora de rua, que ao pedir ajuda a um homem em um dia de frio, é ignorada como se não existisse. Essa problemática transcende à arte, e perdura, sem solução, na sociedade brasileira, contribuindo para que essa parcela da sociedade continue a sofrer com a privação de seus direitos.

Somado a isso, há a inobservância estatal, que com suas falhas não consegue cumprir o principal artigo da Constituição Cidadã de 1988, o direito à vida com dignidade. Portanto, a falta de políticas públicas de assistência social, como cursos profissionalizantes gratuitos e acompanhamento médico, principalmente para os dependentes químicos – visto que a cada 7 moradores de rua 4 são usuários de drogas, de acordo com o portal IG – contribuem para que essa situação se mantenha presente na realidade brasileira. Ademais, a falta de apoio financeiro a institutos e ONG´s que buscam levar auxílio a essas pessoas é outro agravante do problema. Diante disso, conforme cita o jornalista irlandês George Shaw: ’’ O progresso é impossível sem mudança’’, é necessário que medidas sejam impostas.

Logo, é mister que o Estado tome providências para atenuar tal quadro. Portanto, compete ao Executivo investir em institutos e ONG’s, como o Projeto Ruas, a fim de que essas tenham meios de propagar campanhas que aproximem a sociedade da realidade que vivem, com palestras, convites aos centros de apoio e panfletos que incentivem a ação comunitária, incentivando no corpo social a alteridade para com o próximo. Também, para que as ONG’s consigam oferecer oficinas de qualificação profissional, e em parceria com o SUS, atendimento médico e psicológico. Somente assim, será possível que os Gregórios da sociedade brasileira tenham seus direitos inalienáveis garantidos.