A população em situação de rua no Brasil
Enviada em 11/11/2020
A autobiografia ‘’Quarto de Despejo’’, da escritora Carolina de Jesus, retrata o dia a dia na favela do Canindé, onde as condições de moradia são precárias ou inexistentes. Essa obra configura, infelizmente, a realidade de milhares de brasileiros que postos à margem da sociedade perambulam, sem casa e rumo, nos grandes centros urbanos. Assim, como consequência da negligência do corpo social, a urgente questão das pessoas em situação de rua, no Brasil, reflete tanto o caráter excludente do capitalismo contemporâneo quanto o execrável preconceito, presente no âmago da população. O despreparo da comunidade perante os sem-teto, portanto, urge por um cenário mais inclusivo.
Em uma perspectiva centrada na esfera econômica, a formação das malhas urbanas afasta os mais pobres das áreas centrais, cujas infraestruturas apresentam qualidade. Nesse âmbito de segregação, a gentrificação, teorizada pelo geógrafo Milton Santos, demonstra o teor supressivo da especulação imobiliária sobre a população carente, de modo a ‘’empurrá-los’’ para as periferias; isto posto, o selvagem capitalismo contemporâneo exclui, impiedosamente, pessoas que não possuem boas condições financeiras de se manterem nas regiões com estrutura adequada ou, até mesmo, de adquirirem uma moradia, vivendo, assim, em situação de rua. Dessa maneira, a empatia é omitida por cifrões.
Para além dessa contestação, a visão preconceituosa dos ‘’cidadãos de bem’’ também contribui para a ampliação das desigualdades sociais. Em vista do ódio, em 2019, na cidade paulista Barueri, quatro moradores de rua morreram envenenados, sem motivo explícito, por comerciantes. Frente à problemática de violência, os assassinatos traduzem um mórbido sentimento de limpeza social, que paira sobre a ideologia das elites. Assim, apesar de o país dispor de prerrogativas jurídicas corroboradas pela Constituição Federal, em 1988, como o direito à vida e ao bem-estar, é evidente que os produtos das leis não atingem a sociedade de forma universal.
Diante do exposto, os cidadãos em situação de rua clamam por ações populares que visem minimizar a condição de invisibilidade social. Para tanto, as fundações comunitárias, responsáveis por condicionar melhorias à determinada região, aliadas ao Estado, devem fornecer, por meio do Fundo Nacional de Habitação, mais verbas à construção de abrigos solidários, visto que o atual investimento é quase inexistente. Como resultado direto, milhares de brasileiros que não apresentam bem-estar em relação ao lar apresentarão o mínimo de comodidade e saúde. Em análise, a realidade de vida da população em nível de mendicância pede por uma comunidade cada vez mais justa e pelo amplo cumprimento da legislação nacional.