A população em situação de rua no Brasil
Enviada em 03/03/2021
O livro “Vida de Droga”, de Walcyr Carrasco, retrata a história da protagonista Dora, que após enfrentar uma crise econômica e se distanciar de sua família, passa a utilizar drogas com frequência e começa a morar nas ruas para sustentar o vício. Tal cenário também é observado fora das páginas, visto que, por causa da dependência química e pelas mais variadas razões, muitos indivíduos se encontram em situação de rua. Esse panorama advém da sistemática negligência governamental que não se preocupa com a manutenção de um espaço social digno para com essas pessoas. Nesse sentido, é importante reconhecer que entre os fatores que aprofundam essa realidade, destacam-se o sistema econômico capitalista e o uso de uma linguagem pejorativa que naturaliza tal cenário.
Em primeiro plano, torna-se fundamental o entendimento de que a influência do sistema econômico vigente promove uma realidade de indiferença às pessoas que estão em situação de rua. Isso ocorre por causa dos valores da mentalidade capitalista que tende a julgar o corpo social pela produtividade e lucratividade de suas ações. Consequentemente, nota-se o processo no qual essa população passa a ser subvalorizada por não terem uma força de trabalho formal. Como consequência desse panorama, observa-se, por meio da Pesquisa Nacional sobre a População em Situação de Rua, de 2008, que 30% desses cidadãos sofreram experiências de impedimento de acesso ao transporte coletivo.
Além disso, é imprescindível perceber como a linguagem pejorativa, juntamente com a ausência de uma ação do estado, alicerça um cenário de marginalização. Isso ocorre porque a sociedade constrói terminologias depreciativas para para lidar com as pessoas em situação de rua, estimulando, assim, uma visão preconceituosa dessas. Consequentemente, o tecido social reproduz expressões como “moradores de rua”, a qual transmite a ideia de que a rua - um espaço público violento, desconfortável e sem saneamento básico, higiene e alimentação adequada - seria um lugar possível para morar. Tal conjuntura aproxima-se da afirmação do historiador brasileiro Leandro Karnal, “Uma das características da cultura é tornar natural o que não é”, uma vez que o processo supracitado naturaliza o que não é natural.
Por fim, diante dos desafios supramencionados, é necessária a ação conjunta do Estado e da sociedade para mitigá-los. Nesse âmbito, cabe ao poder público, na figura do Ministério Público, em parceria com a mídia nacional, desenvolver campanhas de conscientização - por meio de relatos e curta-metragens a serem veiculadas nas mídias sociais - a fim de promover um debate sobre as discriminações sofridas pela população em situação de rua. Feito isso, o Brasil poderá garantir segurança, assistência e acolhimento para que as “Doras” se tornem, de fato, cidadãs plenas.