A população em situação de rua no Brasil
Enviada em 04/10/2021
“Era uma casa muito engraçada/ Não tinha teto, não tinha nada/ Ninguém podia entrar nela, não/ Porque na casa não tinha chão”. A casa imaginária dessa música infantil de Vinicius de Moraes, assim como a moradia de muitos brasileiros que estão em situação de rua, não existe. Tal processo tem origem inquestionável na negligência do Estado ao não amparar esses indivíduos. Assim, entre os fatores que aprofundam a gravidade dessa questão pode-se destacar a incapacidade do corpo social de enxergar essas pessoas e o inválido discurso meritocrático que predomina na comunidade.
Em primeiro lugar, é fundamental destacar que uma população que se nega a encarar essa situação trágica, congregada a um governo negligente, gera o descaso com a população desabrigada no Brasil. Esse cenário surge pelo fato de que como os moradores de rua não são uma prioridade nas ações dos gestores públicos, esse grupo não ganha lugar para reivindicar seus direitos de moradia, fato desencadeador de uma baixa mobilização do restante do tecido social, o qual não consegue compreender essa realidade e, assim, não se posiciona para criticar essa situação. Essa análise se assemelha àquilo que elaborou Platão em seu Mito da Caverna, uma vez que, assim como os prisioneiros que eram enganados com uma falsa realidade projetada pelas sombras na gruta, a população também vive na ilusão de que o problema de pessoas em situação de rua é inexistente.
Em segundo lugar. A persistência de um discurso meritocrático gera o abandono dos moradores de rua brasileiros. Isso ocorre em virtude de ao acreditar no discurso em que todos podem ter prosperidade através do trabalho duro e da determinação, a sociedade transfere a culpa da condição de vulnerabilidade aos indivíduos desabrigados, sem levar em consideração as oportunidades oferecidas somente à minoria. Esse pensamento se comunica com o filme “Us”, visto que, assim como a personagem “Red” só consegue alcançar a prosperidade quando “rouba” as oportunidades dos personagens da superfície, os desabrigados não conseguem sair da miséria, pois as oportunidades nunca são oferecidas a eles.
Diante do exposto, é necessário reconhecer que a negligência do Estado é a origem do descaso com as pessoas em situações de rua no Brasil. Para solucionar esse problema é essencial que o governo federal crie um Programa Nacional de auxílio à moradia - que conte com ampliação das ofertas de abrigo na perspectiva de baixa exigência, ampliação da estratégia de trabalho, e a construção de estratégias de habitação e moradia, como o aluguel social - por meio de um projeto de lei a ser votado no congresso e com a finalidade de oferecer oportunidades para essas pessoas melhorarem suas condições de vida. Somente assim, as pessoas terão uma moradia de verdade, e não imaginária.