A prática da justiça com as próprias mãos no Brasil

Enviada em 27/11/2018

Justiça sim, ódio não!

O cinema mundial tem valorizado a figura do anti-herói, é o que se vê em produções de sucesso como " Deadpool " e " Esquadrão Suicida “. Esses heróis nada convencionais caracterizam-se por exibir suas falhas de caráter e não apenas as virtudes, refletindo uma sociedade moderna violenta, que relativiza valores éticos e está disposta a praticar a chamada justiça com as próprias mãos. O problema é que onde há desejo de vingança e crueldade, a verdadeira justiça não pode se estabelecer.

Em primeiro plano, é válido ressaltar o pensamento do contratualista Thomas Hobbes ao afirmar que a sociedade precisa do Estado regulando as ações dos indivíduos para que não impere o caos entre os homens. Nesse sentido, quando o Governo se ausenta da responsabilidade de promover ordem e segurança para a população, surge essa “justiça” paralela, que é nociva para todos pois não se baseia na razão, mas sim na revolta. Por isso, a negligência do Estado não pode ser usada como pretexto para que as pessoas extravasem a sua raiva, acarretando em tragédias como a que ocorreu com a dona de casa Fabiane Maria de Jesus, espancada até a morte por moradores do litoral paulista, sob a falsa acusação de realizar rituais de magia negra com crianças.

Ainda nesse contexto, tomando por base o conceito de modernidade líquida formulado por Zygmund Bauman, é importante considerar como os valores ético-morais vêm se diluindo em prol de outros cada vez mais individualistas. Essa realidade pode ser vista no fenômeno da justiça pelas próprias mãos, sendo essa a manifestação de um individuo ou grupo que fazendo valer a sua vontade, não respeita leis ou normas coletivas, preferindo por em vigor suas próprias regras. Tais pessoas tomam o lugar de juiz e carrasco, e sem nenhuma consideração pelos direitos do outro, desafiam séculos de luta pelos direitos humanos, visto que se alguém é desrespeitado sem que isso seja tido como grave, tal fato abre precedente para que todos possam ser aviltados, pois o valor à vida se torna relativo.

Em suma, a falsa justiça própria revela-se como um problema social agregador de violência e barbárie, desrespeitando os direitos inalienáveis do ser humano. Perante a isso, cabe ao Estado levar à população não apenas o seu braço armado, mas também assistencial, implantando nos locais com maior índice de criminalidade, projetos de pacificação com palestras nas escolas e a criação de centros de atendimento a vítimas de eventos traumáticos, oferecendo apoio de psicólogos e assistentes sociais para que possam superar os problemas vivenciados. Ademais, é importante a atuação da mídia engajada, divulgando em programas televisivos e nas redes sociais campanhas a favor da paz e dos direitos humanos para que o público se conscientize e busque  meios legítimos de fazer justiça.