A prática da justiça com as próprias mãos no Brasil

Enviada em 07/05/2020

Lima Barretto, em seu livro “Os Bruzundangas”, ilustrou uma problemática nação que satiriza o Brasil do início do século XX. Esse país fictício apresentava problemas como uma certa ineficiência da justiça e a propensão dos cidadãos a realizarem o que seria papel do Judiciário. Passado quase um século, seria razoável que a obra do autor pré-modernista não fosse tão parecida com o Brasil atual. Todavia, não é o que acontece quando se observa a prática da justiça com as próprias mãos no contexto atual. Nesse sentido, é necessário entender os porquês dessa problemática, os quais estão relacionados a fatores políticos e educacionais.

Outrossim, há a dimensão cultural da questão. Thomas Hobbes definiu que o homem, em seu estado natural, está em constante guerra e violência, cabendo ao governo e à educação salvaguardar a proteção. Não obstante, a formação escolar brasileira não trata, de forma profundada, a justiça, tangenciando-a em poucas aulas de ciências humanas, devido à existência de outros extensos conteúdos a serem lecionados. Consequentemente, indivíduos sem uma formação sólida sobre justiça podem vir a cometer injustiças com as próprias mãos quando em momento de revolta, regredindo ao estado de guerra hobbesiano.

Torna-se cristalina, dessa forma, a necessidade de se intervir nesse problema. Para tal, é necessária a mudança na estrutura educacional. Logo, as escolas devem abordar, com mais atenção, aspectos da justiça através da realização de debates e discussões em sala de aula. Mais detalhadamente, aulas de sociologia e história que abordem Max Weber e Thomas Hobbes podem ser usadas para propor discussões mediadas pelo professor, o que incutirá nos alunos o ideal de justiça. Com essas medidas, que não exclui outras, espera-se que diminua a barbárie e reduzam as semelhanças com Bruzundangas.