A prática da justiça com as próprias mãos no Brasil

Enviada em 24/08/2020

Praticar justiça com as próprias mãos é, além de um sério problema gerado pelo homem, uma preocupação para todas as gerações, pois, conforme o tempo passa, mais a sociedade contemporânea necessita de planejamento e competência quanto à proteção da dignidade humana. Nesse contexto, em especial no Brasil, essa problemática ganha contornos de desespero, tendo em mente que, nas últimas décadas, segundo o IBGE, o índice de crescimento de linchamentos públicos entre a população no país foi superior a 23% e o de prevenção foi inferior de 6%.Diante dessa realidade assustadora, é preciso repensar o comportamento social e o estatal, no sentido de reeducar a sociedade e de redirecionar as prioridades governamentais, senão o futuro estará seriamente comprometido.

Em princípio, quando se leva em conta, por exemplo, que o país sustenta, atualmente, de acordo com a ONU, o status de quinto no ranking de praticar justiça com as próprias mãos, torna-se perceptível a gravidade do caso. Isso porque, embora sejam elaboradas leis como país de primeiro mundo, a exemplo do art. 5º da C.F.,o sistema judiciário está entre os piores do globo, com uma margem de mais de 42% de crimes, sequer, investigados, conforme o CNJ. A consequência disso é a degradação social, com a destruição de famílias, no que tange ao psicológico, em decorrência do descaso das autoridades competentes. Tudo isso atrelado à ausência de políticas pactuadas com o bem-estar social.

Nesse aspecto, a efetividade no combate aos “justiceiros” é impossibilitada em razão da escassez de informações que revelem suas identidades e por conivência popular. Nessa lógica, os malfeitores vivem em um meio periculoso, e o pior é o paradoxal cenário, no qual são submetidos a torturas e à violência desumana, como animais, fato ratificado nas palavras do filósofo e fundador da ciência moderna Francis Bacon, segundo o qual “a vingança é uma espécie de justiça selvagem”, pois é explícita a pacificidade social em desconformidade com o art. 5º da C.F. frente à vulnerabilidade da dignidade humana exposta em uma rigorosa e cruel execução de linchamento popular.

Diante desse cenário bárbaro “invisível” a muitos olhares no Brasil, urge a tomada de medidas incisivas, para reverter esse quadro de eminente incivilidade. Para tal, as autoridades governamentais, como, por exemplo, o Ministério da Justiça, precisam implementar políticas públicas de regulamentação, de fiscalização e de execução das normas atinentes à civilidade e à proteção da dignidade humana, com o desenvolvimento de programas educacionais e civilizatórios nas escolas e investimentos na melhoria da segurança pública. Alem disso, cabe à mídia trabalhar o comportamento do cidadão em relação à proteção dos mais frágeis e à aplicação das leis constituintes, evitando-se assim os autos índices de linchamentos. Dessa forma, aluta a favor da imparcialidade não será inócua.