A prática da justiça com as próprias mãos no Brasil
Enviada em 27/08/2020
Fabiana Maria de Jesus estava oferecendo uma fruta para uma criança quando foi confundia com uma criminosa. Acusada de magia negra pelos presentes, foi espancada até a morte. Seu nome, seu gesto e nem mesmo a bíblia que carregava embaixo do braço evitaram o fato. Um caso triste e, infelizmente comum no Brasil. A justiça com as próprias mãos, que tem sido cada vez mais divulgada e incitada com a evolução de redes sociais, é um problema causado pelas sensações de insegurança e impunidade, reflexos de um Estado, há tempos, omisso e falho.
Vive-se hoje, no Brasil, em um permanente estado de insegurança. Diariamente alimentado por sensacionalismo em jornais, conservado por notícias falsas em redes sociais e comprovado por um judiciário ineficaz. As pessoas vivem com medo, com a certeza de que, se algo acontecer com elas, nada acontecerá com quem fez. O medo gera saturação, a saturação gera raiva e a raiva gera violência. A vontade de fazer justiça com as próprias mãos cresce quando essa parece ser a única forma de evitar a impunidade de mais crimes.
Esse tipo de “justiça”, contudo, também é um crime e, por isso, também adquire o mesmo caráter de impunidade. Sobre a tortura e assassinato de Fabiana, 5 pessoas foram presas, 100 participaram e 1000 presenciaram o fato, um exemplo de como a “justiça é cega” em assunto de ineficiência. Sendo assim, os responsáveis por esse tipo de “justiça”, mesmo conscientes que estão cometendo outro crime, acham que nada acontecerá com eles. A vontade que tinham, agora, é impulsionada também pela sensação de impunidade (aquela mesma causadora da insegurança).
O ciclo é interminável: a “justiça” com as próprias mãos, em um cenário de insegurança, é vista como única a maneira de diminuir a impunidade de criminosos e é realizada, pois seus responsáveis sofrem dessa mesma impunidade. Dessa forma, maneiras de amenizar essa realidade , que é reflexo de um Estado omisso, é fazê-lo mais presente. Primeiro, para a constante sensação de insegurança diminuir, dois tipos de leis devem ser criadas pelo Legislativo: uma para impedir a circulação/criação de notícias falsas (seja por exercício da soberania de Estado frente ás empresas de redes sociais, cobrando uma maior vigilância sobre o assunto; seja por aumento de punição para os indivíduos envolvidos), e outra para a diminuição de sensacionalismo em órgãos de imprensa, obrigando-os a filtrarem seus conteúdos muito explícitos, frequentemente divulgados. Depois, para a sensação de impunidade, campanhas estaduais podem ser feitas - com cartazes, propagandas e outdoors - para mostrarem que crimes nomeados de “justiça com as próprias mãos” também são graves e que serão investigados e punidos. Seriam liquidados, assim, a saturação do medo e a coragem da impunidade.
leis que aumentem a vigilância e a punição de criação/circulação de notícias falsas em redes socias devem ser feitas pelo poder Legislativo.
A omissão do Estado e a falha do sistema judiciário