A prática da justiça com as próprias mãos no Brasil
Enviada em 31/08/2020
No filme “Coringa”, o protagonista Arthur Fleck adquire uma arma para combater os indivíduos que o violentam constantemente. Fora da ficção, muitos brasileiros também incorporam esse sentimento em razão das injustiças sociais sofridas cotidianamente devido a pífia atuação do Estado na concessão de cidadania. Logo, é irrefutável a necessidade de subverter tal contexto, o qual possui como agravantes a inobservância estatal e a ascensão da cultura do ódio.
Em primeiro lugar, é importante salientar que a ineficácia legislativa potencializa essa prática. Segundo Thomas Hobbes, o Estado é incumbido de assegurar o bem-estar social. Nesse sentido, a sua fraca atuação quanto a garantia dos direitos civis instaura um tremendo caos, visto que a sociedade identifica que o contrato social, conforme descrito por Hobbes, foi rompido e retorna ao estado de natureza. Sendo assim, a justiça com as próprias mãos torna-se útil para realizar punições legítimas, tendo em vista que a legislação não assegura, na prática, a segurança social.
Em segundo lugar, vale ressaltar que essa postura violenta da sociedade é reflexo das manifestações de ódio popular. Consoante a filósofa Hannah Arendt, quando uma prática negativa é alimentada, a tendência é que se torne banal na vida das pessoas. Isso é amplamente observado na situação em questão, uma vez que o discurso de ódio e a justiça com as próprias mãos acontecem, muitas vezes, pela naturalização de uma cultura desumana cultivada com constância. Com isso, tais indivíduos se assemelham bastante aos líderes nazistas que executavam inúmeras ações violentas e genocidas por terem internalizado ideologias biopolíticas sem antes questioná-las.
Em virtude disso, medidas são necessárias para sobrepujar tal situação. Para isso, as escolas devem adotar uma política de conscientização social e enfatizar a necessidade da população cobrar das autoridades políticas a garantia de seus direitos. Isso pode ser feito por meio de campanhas sociais intituladas de “violência gera violência”, as quais tenham intuito de coibir a justiça com as próprias mãos e a cultura do ódio no país, além de debater questões acerca dos direitos sociais. Desse modo, será possível mitigar ações movidas pela emoção em detrimento da razão, como a ocorrida com Arthur Fleck.