A prática da justiça com as próprias mãos no Brasil

Enviada em 27/01/2022

No mangá ‘‘Death Note’’, o protagonista Light Yagami, ao adquirir um caderno capaz de matar qualquer pessoa que ele desejar, decide eliminar todos os delinquentes que existem na terra, mesmo que para isso tenha que matar pessoas inocentes. Tal postura, lamentavelmente, não se revela somente na ficção, mas também na realidade, uma vez que a prática de justiça com as próprias mãos está se tornando cada vez mais corriqueira na contemporaneidade brasileira. Logo, faz-se urgente analisar o papel das mídias sociais e o fortalecimento do individualismo para mitigar de vez essa grave mazela.

Em primeira análise, é válido afirmar que a proliferação de discursos de ódio nas principais plataformas de comunicação  incentiva, de maneira acentuada, os indivíduos a buscarem justiça com as próprias mãos. A esse respeito, o sociólogo Manuel Castells desenvolveu o conceito de ‘‘Sociedade em Rede’’, segundo o qual a inserção demasiada das tecnologias de informação no cotidiano das pessoas, muitas vezes, colabora para alienação dos cidadãos. Nesse sentido, a visão pessimista de Castells encontra-se fincada na hodiernidade, tendo em vista que as redes sociais, apesar de serem importantes fontes de informação, podem ser utilizadas como instrumentos para manipulação das pessoas, instigando-as a realizarem justiça com as próprias mãos em prol de uma falsa harmonia social. Dessa forma, um maior controle no fluxo de informações nas redes, sem que haja violação na privacidade dos internautas, torna-se crucial para eliminar esse flagelo.

Outrossim, é notório destacar que a fluidez nos laços humanos corrobora a perpetuação de sentimentos de ódio e de vingança na pós-modernidade. Já dizia Zygmunt Bauman, em sua obra  ‘‘Tempos Líquidos’’, que emoções, como o amor e a felicidade se esvaem pelo vão dos dedos da mão humana. Nesse viés, o pensamento de Bauman encaixa-se perfeitamente nesta discussão, haja vista que o excesso de individualismo na realidade brasileira incentiva o surgimento de diversos conflitos - brigas e desentendimentos- na sociedade que, não raramente, poderiam ser resolvidos a partir de uma resolução amistosa. Tal entrave, por conseguinte, acarreta a justiça com as próprias mãos, posto que a falta de solidariedade e de empatia incentiva o desejo de vingança. Dessa forma, solidificar as relações humanas é a medida que se impõe para combater definitivamente essa problemática.

Fica clara, portanto, a necessidade de adoção de medidas para minimizar esse problema . Nesse ínterim, cabe as mídias sociais fiscalizar as informações circuladas na rede - bloqueando conteúdos potencialmente prejudiciais aos internautas, como os que incentivam violência - por meio de uma rigorosa aplicação de políticas de controle de dados e de privacidade com multas e suspensões para os usuários que desobedecerem as regras. Assim, atitudes como as de Light estarão somente nas ficções.