A presença do sensacionalismo no jornalismo brasileiro.
Enviada em 23/09/2019
Conforme o Google Dicionário, “sensacionalismo” significa “uso e efeito de assuntos sensacionais, capazes de causar impacto, de chocar a opinião pública, sem que haja qualquer preocupação com a veracidade”. Aqui, a definição remete não só a verificação dos fatos, mas também à escolha deles por critérios privados. Desse modo, o sensacionalismo traz o problema da seleção do que é ou não relevante à opinião pública sem, contudo, revelar seus critérios a ela. Em vista disso, este texto tem o escopo de discutir a importância da crítica ao critério de seleção dos fatos em qualquer narrativa. O objetivo é analisar o caso da edição do debate entre Fernando Collor e Lula, na TV Bandeirantes em 14/12/1989, usando o relato dado por Boni, ex-diretor geral da Rede Globo, ao programa Morning Show em 18/03/2016.
O episódio da edição é formado por dois desdobramentos, nos quais fica evidente a disputa pela montagem da narrativa. No primeiro, após a transmissão ao vivo, Boni conta que Roberto Marinho, dono da Rede Globo, pediu para que fosse feita uma edição “correta” do debate que não favorecesse nenhum dos lados. Assim, a redação cuidou para atendê-lo. Entretanto, alguém “um pouco mais lulista” fez uma edição favorecendo o candidato do PT, o que “irritou violentamente” o dono da emissora, quando o conteúdo foi ao ar no Jornal Hoje. Nota-se, portanto, a disputa entre dois interesses: a edição supostamente correta de Roberto Marinho; e a montagem do “redator lulista”. Neste momento, o interesse lulista se sobrepôs, ainda que por pouco tempo.
No segundo desdobramento, Boni diz que o “dr. Roberto Marinho” ordenou que o conteúdo fosse, imediatamente, reeditado. Na reedição do debate, porém, foi feito “exatamente o oposto” de quando fora editado: o conteúdo favorecia, exageradamente, o candidato Fernando Collor. Era como se ele tivesse “ganho de 2x1 e aparaceu no ar de 7x1”, diz o diretor geral. Boni descreve, então, que teve um susto quando essa edição “supereditada” foi ao ar no Jornal Nacional. A segunda parte do episódio, dessa forma, mostra que o interesse do outro candidato prevaleceu, enquanto a “edição correta” de Marinho não se concretizou.
Em suma, é importante frisar que edições isentas, ou “corretas”, normalmente não se concretizam. Devido à pressão constante de interesses sobre a escolha dos fatos que serão narrados. Espera-se, dessa forma, que a importância da crítica desses interesses seja reconhecida pelas pessoas, que consomem tais narrativas, por meio do projeto “Leitura de Jornal”. Um curso extracurricular oferecido pelo MEC através dos professores das humanidades, nas escolas públicas. Será formado por análises em classe de textos curtos, escritos e audiovisuais, cujo foco é a composição factual da narrativa.