A presença do sensacionalismo no jornalismo brasileiro.

Enviada em 20/04/2020

A criação da imprensa com Johann Gutemberg no século XV contribuiu positivamente para a busca por igualdade e direitos civis, pois a rápida propagação de informações possibilitou movimentos revolucionários, como a Reforma Protestante - uma importante peleja contra a manipulação coletiva cometida pela Igreja Católica. Com o decorrer do tempo, os meios de comunicação evoluíram e hoje permitem o acesso quase imediato às notícias publicadas, sendo uma importante ferramenta para a aldeia global quando utilizados de maneira irresponsável. Entretanto, a busca por audiência leva os portais de notícias a colocarem a ética jornalística de lado e moldarem as informações para torná-las mais interessantes e atrair a atenção do público, o que configura o chamado sensacionalismo.

Nesse seguimento, notícias parciais com chamadas polêmicas não são casos isolados no Brasil e foram responsáveis pela criação de matérias absurdas, como a invenção ET Bilu - caso que foi repassado por inúmeras emissoras televisivas na década de 1990 e é um claro exemplo de como a gazeta sensacionalista abdica totalmente da ética quando o assunto é conseguir audiência. Assim, o que deveria ser um instrumento a favor da população se torna mais um dos meios utilizados pelos grupos de poder para manipulá-la com o intuito de acumular capital, o que vai ao encontro do pensamento do sociólogo Pierre Bourdieu: “aquilo que foi criado para ser um instrumento da democracia não deve ser convertido em uma ferramenta de manipulação”.

Por conseguinte, é incontrovertível que tamanha irresponsabilidade plumitiva tem efeitos devastadores na sociedade. Dentre eles, o mais prejudicial e inconcebível é o de influenciar a consciência coletiva a pensar e agir de maneira preconceituosa - afinal, o sensacionalismo é uma maneira de alienar a sociedade; já o preconceito, conforme observou sir Arthur Lewis, é fruto da ignorância. Dessarte, a título de exemplo dá-se o caso da aids à época em que foi descoberta, o qual foi divulgado por diversos meios midiáticos sem a devida apuração dos fatos e com a utilização de termos populares, como “câncer gay” e “peste gay”, o que favoreceu a construção de um juízo discriminatório de difícil dissolução. Nesse sentido, enquanto o jornalismo sério é uma necessária ferramenta de informação e poder do povo, o sensacionalismo é a escória que lesa a democracia.              Portanto, é premente que a cultura sensacionalista seja extirpada. Logo, cabe ao Poder Legislativo proteger os cidadãos contra a manipulação midiática por intermédio da criação de uma lei que proíba a veiculação de notícias excepcionalmente parciais e inverídicas e mediante a criação de um código de defesa do público (sejam leitores, ouvintes ou telespectadores), a exemplo do bem sucedido Procon. Dessa maneira, o cidadão que se sentir lesado pode fazer valer seus direitos por meio de denúncia e contribuir, assim, para a ordem pública e o interesse social.