A presença do sensacionalismo no jornalismo brasileiro.
Enviada em 02/10/2020
Outra vez, o sensacionalismo dos programas policialescos roubou a cena. Um telejornal, exibido no final da tarde, mostrou, ao vivo, o momento em que uma mãe recebe a notícia do assassinato da filha de 21 anos que estava grávida. A jovem havia sido sequestrada e, segundo a mãe, o principal suspeito era o namorado. A matéria foi exibida em 17 de fevereiro. O programa Cidade Alerta, da TV Record, cobria os desdobramentos do caso desde 12 de janeiro. Na ocasião, o apresentador informou que havia conseguido “novidades” com o advogado que representa o então companheiro da garota. Ele ainda avisa a mãe: “Vou precisar que a senhora seja muito forte”. Ao ouvir que o suspeito teria confessado o homicídio, a mãe se desespera e desmaia. Ao vivo.
A linha que separa o jornalismo do sensacionalismo não é tão tênue. Ou melhor, nada tênue. Não tem como estar um pé lá e um pé cá. O tal “espreme que sai sangue” está aí, escancarado. E isso não é jornalismo. O conceito de jornalismo é pautado em ética e respeito, buscando a inatingível imparcialidade e prezando pela objetividade. Está no cerne da profissão levar a informação baseada na verdade – ou o mais próximo disso -, ouvindo todos os possíveis lados, visando esclarecer fatos e incentivar a cidadania. É dever do jornalismo noticiar a morte da jovem. É desserviço expor a família a tamanha humilhação. Mas, para quem faz, o espetáculo da violência brilha aos olhos. Atrai. A competição do meio eleva os limites do moralmente e eticamente aceitável, transformando a programação num show.
Embora a tragédia tenha provocado repúdio, esta não foi a primeira e não será a última vez. A regulação dos veículos de comunicação ainda caminha a passos lentos. Na verdade, atualmente, sequer caminha. Não há, no Brasil, uma regulação específica ou um órgão que regule, como acontece no Reino Unido. Por aqui, não há muito pode ou não pode. Durante o segundo mandato do governo Lula, foram iniciadas propostas para tratar tal assunto, mas as emissoras de TV e associações da área da comunicação, em defesa de seus interesses, se mostraram contrárias.
Retomar discussões acerca da regulação implicaria em também debater sobre o que é e o que não é apropriado para ser exibido. A questão é que conteúdos policiais, que exibem violência e causam revolta e comoção, dão boa visibilidade. Programas com boa visibilidade geram renda e, por isso, funcionam bem, independente do conteúdo ou de quem seja o público receptor. Enquanto isso, cabe-nos discutir com revolta a situação na tentativa de evitar novos casos grotescos de quando o sensacionalismo ultrapassa a chatice dos gritos e comentários maldosos e enviesados dos apresentadores falastrões de dentro de seus estúdios e reacender a pauta da regulação.