A presença do sensacionalismo no jornalismo brasileiro.
Enviada em 08/09/2021
O poema “João Gostoso”, do poeta brasileiro Manuel Bandeira, mescla o gênero lírico com o jornalístico ao apresentar elementos próprios da notícia, tais como: quem, onde, o quê e quando. Fora da literatura, infelizmente, o sistema jornalístico denota aos elementos supracitados um caráter sensacionalista, isto é, expõe as notícias de modo exagerado e com juízo de valor para atrair a audiência. Nesse cenário, o jornalismo excede a função de informar o corpo social para aterrorizá-lo e influenciá-lo mediante as reportagens. Assim, é imprescindível observar os impactos desse sensacionalismo na formação da opinião pública e na reação da sociedade frente as informações.
Precipuamente, é lícito postular que a concepção de “vítima” e “culpado” é induzida pelas manchetes a depender da escolha de palavras e da sua estruturação na reportagem. Sob esse viés, o documentário “Quem matou Eloá?”, o qual fala sobre uma jovem sequestrada, em 2013, pelo ex-namorado que é mantida em cárcere por ter terminado o relacionamento, relata a inversão de valores através da espetacularização e da romantização promovida pelas emissoras de TV. Com efeito, o sequestrador passou a ser visto, pelo tecido social, como um homem inofensivo e apaixonado. Por conseguinte, a manipulação dos fatos contribuiu com a morte da menina, uma vez que os noticiários ajudaram o povo e as autoridades a subestimar a gravidade do ocorrido.
Outrossim, percebe-se que as notícias escandalosas ganham maior visibilidade nos jornais, o que corrobora um cenário catastrófico atribuído ao Brasil para impressionar os telespectadores. Contudo, essa prática promulga a normalização dos crimes e da violência, isso porquê convence o brasileiro de que o país está um caos, o que traz insegurança e medo. Em consonância com Hannah Arendt, filósofa alemã, “Aquilo que é amplamente disseminado tende a ser pouco discutido”, logo, a sociedade ignora ou aceita as ações violentas e deploráveis por serem reportadas corriqueiramente. Dessa forma, constrói-se um corpo social estático em questões políticas que se mostra indiferente aos horrores hodiernos.
Infere-se, portanto, que o atual jornalismo deveria se inspirar no poema de Manuel Bandeira, o qual apresenta os fundamentos do jornal apenas com o fito de informar, para tanto, o Ministério de Comunicação deve, por meio da criação de leis, obrigar programas de jornal a dinamizar o conteúdo, como a instauração, em todos os jornais, de um quadro com notícias positivas sobre o Brasil. Ademais, o órgão mencionado também deve emitir um limite máximo de infrações cometidas, pelas agências de comunicação, contra o código da ética, como a emissão de opiniões pejorativas sobre o entrevistado ou a situação. Dessarte, espera-se, com isso, impor maior seriedade quanto as informações trazidas ao público e diminuir tanto a subjetividade, quanto a dramaticidade nos jornais brasileiros.