A qualidade da água no Brasil

Enviada em 21/04/2020

O filósofo grego Tales de Mileto, que viveu por volta do século V a.C., afirmava que “tudo é água”, aludindo à essencialidade dessa substância para a vida na Terra. Hoje, a importância desse recursos é bem conhecida, apoiada tanto no conhecimento científico quanto na experiência prática. Apesar disso, ainda existem muitos desafios para garantir o acesso à água de boa qualidade no Brasil, dentre os quais é possível destacar os abusos da indústria agrícola e a má gestão dos esgotos no país.

A priori, é preciso considerar os impactos do abuso de defensivos agrícolas na qualidade das águas subterrâneas. Segundo o IBAMA, o Brasil é, em números absolutos, o maior consumidor de agrotóxicos do mundo. Essas substâncias, quando utilizadas de maneira indiscriminada, infiltram no solo e contaminam os lençóis freáticos com elementos tóxicos e potencialmente cancerígenos, o que afeta a população abastecida por poços e cursos de água próximos a esses reservatórios. Essa conjuntura é ainda mais grave se considerada a ineficiência dos estados em fiscalizar o uso de agrotóxicos, o que permite o uso de compostos proibidos pela ANVISA e aumenta os potenciais danos à saúde da população.

Ademais, a má gestão das águas residuais representam também um sério risco para a saúde pública, em especial no ambiente urbano. Nesse sentido, a cidade do Rio de Janeiro enfrentou uma crise causada pela contaminação do sistema de abastecimento de água em 2020. O Sistema Guandu, responsável por suprir mais de 70% da população do estado, recebeu efluentes tratados inadequadamente, o que acarretou na proliferação de micro-organismos e comprometeu a qualidade da água, que chegava à população turva e com mau cheiro. Esse caso deve servir de alerta para o Poder Público, que precisa garantir o tratamento eficaz dos esgotos antes que estes sejam lançados novamente nos corpos hídricos.

Faz-se necessário, portanto, agir para garantir o acesso à água de boa qualidade pela população. Para esse fim, o Ministério da Agricultura deve rever a política de agrotóxicos de modo a estimular, por via de incentivos fiscais, o uso de técnicas de controle biológico e intensificar a fiscalização do uso de defensivos agrícolas proibidos. Além disso, o Ministério da Saúde deve agir em conjunto com os estados para garantir o bom uso dos sistemas de gestão de esgoto por meio da fiscalização e reformas da infraestrutura de tratamento para garantir a não contaminação dos mananciais. Assim, será possível garantir um alinhamento das políticas públicas relativas à água com a reconhecida importância desse recurso essencial.