A qualidade da água no Brasil
Enviada em 10/06/2020
Considerado um paraíso natural, dados indicam que a qualidade da água no Brasil padece de má qualidade: um relatório do AMA afirma que, de todos os rios no país, apenas dez por cento é considerado “bom”. Com a exploração contemporânea justificada por um antropocentrismo anacrônico, a frase baconiana “saber é poder” do período, proferida a fim de justificar a dominação da natureza, entra em contradição com si mesma ao alicerçar a ignorância da população sobre o problema.
A fim de analisar a questão hídrica brasileira, é crucial atestar que a relação homem-natureza apresenta um profundo desequilíbrio desde o Renascimento, quando o meio natural foi dessacralizado pelo antropocentrismo. Bacon cria o conceito de “imperium hominis”, isto é, o império do homem sobre a natureza baseado no utilitarismo científico, o qual defende o domínio de conhecimentos técnicos visando submetê-la a anseios humanos. Assim, a qualidade precária da água no Brasil é um indício de que tal mentalidade anacrônica ainda permeia sociedade hodierna apesar do meio acadêmico apontar seus contrassensos. A exemplo disso, dados também indicam que, em áreas urbanas, apenas cerca de um quarto dos rios tem qualidade considerada “boa”, sendo que nenhum atinge o status de “ótimo”.
Parte disso se deve ao “mito da abundância” que coloca a escassez como problema exclusivamente nordestino, negligenciando os efeitos da poluição, da ausência de saneamento básico, da expansão das fronteiras agrícolas e dos impactos causados pela geração de energia hidrelétrica na qualidade da água, pois o Brasil é um éden natural que nunca puniria seus habitantes por mau uso. Tal falácia permanece no imaginário popular devido à falta de exposição pela mídia que, noticiando apenas avanços econômicos de tais atividades, falha em informar ao cidadão que má qualidade da água não só é um problema grave como passível de correção. Isso resulta na inação por parte dos governantes, pouco cobrados pela sociedade civil, que acham mais conveniente poluir e esgotar bacias hidrográficas que modificar a confortável estrutura capitalista atual.
Em suma, observa-se que o problema da qualidade da água no Brasil advém de um antigo ideal de dominação e de um falso mito popular que ignora os efeitos que o mau manejo das águas tem no “éden ambiental” tupiniquim. Porém, a fim de mobilizar a sociedade civil a cobrar mudanças, primeiro, é preciso conscientizar a população sobre a vulnerabilidade ecológica do meio e impactos do atual uso na qualidade hídrica nacional, cabendo à mídia, maior difusora de informações do país, trazer o problema à tona por meio de transmissão de debates entre especialistas da área e pelo noticiamento constante da situação. Afinal, apenas por meio do conhecimento, poder-se-á melhorar o padrão dos mananciais brasileiros e adaptar a referida frase baconiana às ideias contemporâneas de sustentabilidade.