A questão da adoção de crianças e adolescentes no Brasil - ENCEJA E.M. (2017)
Enviada em 14/09/2020
Na obra distópica “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, o protagonista, Bernard Marx, nasce como fruto de uma inseminação artificial. No mundo de Huxley, os vínculos familiares são quase inexistentes e abominados pelos indivíduos considerados civilizados. Fora da ficção, o cenário contemporâneo brasileiro diverge do enredo e as crianças e adolescentes negligenciados são encaminhados para o sistema de adoção para que possam ser acolhidos por uma família. Esse contexto de abandono parental fundamenta-se na desigualdade social e são poucos aqueles dispostos a adotar crianças que fogem de certas especificidades, tornando-se urgentes medidas que possibilitem que todos os jovens tenham uma família, distanciando-se do mundo de Bernard Marx.
Primeiramente, a conjuntura das crianças e adolescentes abandonados no país tem como fruto, majoritariamente, a falta de planejamento familiar entre as comunidades mais pobres, que são numerosas no país desde o período colonial. No contexto da escravidão, mães negras escravizadas costumavam ter filhos aos quais sequer podiam assegurar o bem-estar, apenas para ajudar como mão de obra. Já no cenário contemporâneo, indivíduos à margem da sociedade têm dificuldade a ter acesso a informações de saúde como métodos contraceptivos. Assim, perpetuam-se situações em que os pais não podem arcar com o custo de ter um filho ou mais, o que resulta na negligência.
Além disso, diante do sistema de adoção, muitos casais não estão dispostos a adotar crianças mais velhas ou que não sejam brancas. Sendo assim, muitos indivíduos acabam ficando no sistema até a maioridade. Contudo, segundo o sociólogo brasileiro Sérgio Buarque de Hollanda, é preciso dar voz àqueles que foram silenciados pela história, ou seja, os jovens marginalizados, seja por razões étnicas ou pela idade, devem ser protegidos pelo Estado, que deve encorajar a adoção em toda sua extensão e não apenas entre um grupo seleto.
Portanto, diante dos fatos destacados, intervenções são necessárias para resolver o impasse. O Ministério da Saúde deve articular campanhas dirigidas a bairros que apresentam condições de vida precárias, dirigidas a casais jovens. Tais campanhas devem ter como objetivo conscientizar a população sobre o planejamento familiar e o uso de contraceptivos, bem como sinalizar os postos de saúde mais próximos onde podem ser obtidos. O Estado, por sua vez, deve disponibilizar atendimento psicológico gratuito para aqueles que desejam adotar, para que possam discutir com profissionais sobre os benefícios de acolher uma criança independente de fatores como idade ou cor da pele. Sendo assim, a sociedade brasileira poderá, diferente do mundo distópico de Huxley, seguir encorajando a valorização dos laços familiares- sejam eles sanguíneos ou não.