A questão da fome em tempos de pandemia
Enviada em 10/09/2021
Durante o final do século XV, a Europa entrou em quarentena quando foi assolada pela peste bubônica, que dizimou cerca de um terço da população. De maneira análoga, no século XXI, o mundo enfrenta a pandemia da COVID-19, a qual, além do alto número de mortos, trouxe a corroboração da falta de acesso à alimentos em muitos países. Nesse sentido, em razão de um sistema capitalista tóxico e de uma indiferença estatal, emerge um grave problema: a fome em tempos de pandemia.
Diante desse cenário, vale destacar que uma lógica de acúmulo desenfreado de capital é algo que perpetua a desigualdade social. À vista disso, consoante a filósofa Hannah Arendt, o pior mal é aquele visto como algo cotidiano. Sob esse ângulo, ao se observar o panorama mundial, percebe-se que um dos mais graves problemas existentes é a fome, a qual, dentre outras causas, é originada pelo alto índice de desigualdade social — proveniente de um grave modelo econômico que tem como base muito lucro nas mãos de poucos e poucos bens nas mãos de muitos. À exemplo disso, tem-se, em 2021, no Brasil, devido à pandemia, a marcação de 0,6 no Índice de Gini, o que representa algo gravíssimo. Assim, um dos possíveis caminhos para mudar essa realidade nefasta é combater um dos principais impasses denunciados por Arendt: a banalidade do mal.
Nesse contexto, é importante salientar que a falta de ações governamentais efetivas é outro forte motivo para a miséria. Nesse viés, consoante o princípio da responsabilidade social de Hans Jonas, ser ético é basear as próprias ações com foco no coletivo e nas outras gerações. Sendo assim, ao se analisar a atuação do Estado diante do alto índice de desigualdades, nota-se que, mesmo com programas já existentes, como o Bolsa Família, a ainda fome não foi erradicada, visto que não foram tomadas medidas efetivas para combater esse obstáculo. Diante disso, por conta do despreparo estatal, segundo dados do Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar em Contexto de Covid, tal empecilho atinge cerca de 19 milhões de brasileiros. Logo, enquanto a ingerência política for a regra, brasileiros com uma boa qualidade de vida serão a exceção.
Infere-se, portanto, que o Ministério da Saúde deve organizar um mapeamento solidário, por meio da oferta de profissionais de saúde, por exemplo, médicos, enfermeiros e nutricionistas, os quais deverão tratar as famílias carentes, assim como oferecer o básico necessário à sobrevivência, como uma boa alimentação, a fim de diminuir a desigualdade social. Por sua vez, o Congresso Nacional precisa desenvolver uma ação comunitária durante a quarentena, a qual irá disponibilizar um valor monetário e alimentos para todas as famílias com renda menor que um salário mínimo por pessoa, com o intuito de, de fato, diminuir a miséria. Dessa forma, espera-se frear a fome em tempos de pandemia.