A questão da fome em tempos de pandemia

Enviada em 19/10/2021

Consoante Émile Durkheim, sociólogo francês, a sociedade, assim como um corpo biológico, é composta por partes que interagem mutuamente e cujo bom funcionamento é fulcral à saúde do todo. Seguindo a lógica durhkeimiana, fica claro que a questão da fome em tempos de pandemia, ao submeter o homem à condições de subsistência, ultraja a manutenção da coesão social. Em síntese, esse impasse não se restringe à contemporaneidade, sendo, ainda, agravado pela imperícia governamental.

Precipuamente, é profícuo destacar que a interferência de pandemias na dieta popular não é um problema inédito. Prova disso é que durante os séculos XVIII e XIV, a epidemia de peste negra que assolou a Europa provocou a morte de trabalhadores rurais e, consequentemente, o encarecimento dos alimentos. De maneira análoga, a repetição hodierna dessa realidade limita o acesso da população, principalmente da parcela mais desabastada, à alimentação, submetendo-a a um quadro de miséria. Logo, a falta de providências das forças políticas do país quanto à contenção das consequências advindas de uma pandemia tende a perenizar essa realidade.

Faz-se mister, ainda, salientar a desídia estatal como impulsionadora do problema. Conforme o artigo 3 da Carta Magna de 1988, é incumbência do Estado assegurar o bem-estar de todos os cidadãos. No entanto, essa legislação não tem sido suficiente em relação ao amparo da população em tempos de pandemia, visto que a mazela da fome ainda é uma realidade e que tende a ser potencializada em tal contexto. Assim, a falta de pragmatismo da lei dificulta a resolução desse óbice.

Frente a tal problemática, urge, pois, que o governo federal elabore políticas públicas de fornecimento de crédito à população de baixa renda. Destarte, pode-se possibilitar a aquisição de alimentos por esse setor social e, por conseguinte, mitigar a carência alimentar que aflige o meio social em períodos de fragilidade, tal como o posto por uma pandemia. Desse modo, suscita-se que a sociedade, de fato, funcione como o “corpo biológico” de Durkheim.